You are currently browsing the tag archive for the ‘vida’ tag.

garoto

O garoto de 16 anos interrompe a vida e os sonhos do homem de meia idade que se recusou a lhe entregar o celular.

Antes disso, a vida daquele garoto já tinha sido interrompida pela omissão da sociedade, pela ausência de sua família e pelas garras do tráfico de drogas.

Distantes das ruas sujas e das bocas imundas que alimentam seus negócios, os barões do tráfico são considerados dignos senhores da sociedade, com cargos políticos, menções em colunas sociais e até espaço em púlpitos de igrejas. Cinicamente, enriquecem com o mercado de armas e drogas, negócio que não conhece crise, seja qual for o governo.

O garoto que puxa o gatilho é apenas uma peça na engrenagem azeitada com impunidade e hipocrisia. O pai de família que perde a vida é um efeito colateral da violência que enriquece poucos e destrói a muitos.

Os sonhos do garoto foram roubados, tem nada a perder, matar ou morrer dá na mesma. Não tem horizontes. Foi criado num ambiente em que a violência é normal, apanhou desde criança, viu a mãe apanhar, viu o pai morrer a facadas, enterrou o irmão que morreu no trânsito. Tem nada a perder. Quer apenas mais uma pedra pra fugir da realidade. Só mais uma dose pra fingir-se em outro mundo. Tem nada a perder, matar ou morrer dá na mesma.

Quem roubou os sonhos daquele garoto tem as mãos sujas de sangue. O sangue dele, de sua família e de suas vítimas clamam contra os poderosos que desviaram o dinheiro da educação e da segurança; o sangue deles clama contra uma sociedade omissa, desigual, excludente e opressora; o sangue deles clama contra gente como eu e você, egoístas, preconceituosos e indiferentes.

Quem roubou os sonhos daquele garoto? Eu e você! Nós somos os ladrões de sonhos!

Márcio Rosa da Silva

(Texto que li no musical Guerra e Paz, apresentado na Igreja Betesda de Roraima em 01/11/2014)

Anúncios

Uma das palavras de Jesus para seus amigos, quando falava sobre as intempéries da vida, foi sobre perseverança. Mesmo havendo muitos motivos para desistir: “É perseverando que vocês obterão a vida”.

Na vida, quantas são as guerras e os rumores de guerra? Quantas são as batalhas? Quantos são os ódios e traições que se tem de enfrentar? Quantos são os momentos em que parece não ficar pedra sobre pedra e há a vontade de fugir para as colinas? Como diz a conhecida canção: “Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz?”.

E aí, no meio desse caos que parece ser a vida, ante tantos perigos que rondam, na trágica realidade que pode ser a existência, Jesus diz: “É perseverando que vocês obterão vida”.

Com isso parece ser mais importante como as coisas terminam e não como começam. Para começar algo não é necessário ter perseverança, mas para terminar, sim. Por isso é melhor o fim do que o começo. Para terminar bem é preciso constância.

Veja um casamento. Como é bonito ver o começo de um casamento, a cerimônia, a festa, a paixão, o amor, os planos, os sonhos. E como é triste ver o fim de um casamento, numa sala de audiência no fórum, com casais brigando pela quantidade de colheres na partilha ou sobre quem ficará com a botija de gás.

Melhor é o fim das coisas do que o começo delas, porque é como terminam que importa. Como vai acabar esse casamento é o que importa. Terminarão ainda como dois amantes, cúmplices, amigos, parceiros, duas pessoas que se querem bem e querem estar juntas sempre, ou terminarão como dois inimigos?

Mas um casamento requer trabalho, constância, compromisso, fidelidade, respeito, cumplicidade e muito, muito amor! Evidentemente, é preciso começar bem para terminar bem, mas o que começa bem pode terminar muito mal.

Para qualquer empreendimento dar certo é preciso muita vontade de que isso aconteça. Quantas amizades se desfazem por besteira, ou por falta de vontade de se empenhar na amizade. Muitos querem ter amigos, mas não querem ser amigos quando os amigos precisam. Trocam de amigos o tempo todo, ou seja, não tem amigos verdadeiros.

Caminhar com Cristo, manter-se abraçado ao Evangelho de Cristo, cujos valores vão na contra mão do que impera no mundo contemporâneo, é trabalhoso. Quando se usam as pessoas e elas são descartadas com tanta facilidade, amar o próximo como a si mesmo não é fácil, exige perseverança. Mas são os perseverantes que herdarão a vida! Valorizar mais as pessoas e os afetos do que as coisas não é fácil, mas os perseverantes herdarão a vida!

É preciso também perseverar nos recomeços. Quantas vezes somos claudicantes, quantas vezes tropeçamos, quantas vezes desistimos mesmo. Isso é humano!

Por mais desastroso que tenha sido o final de alguma coisa na sua vida, um recomeço sempre é possível. Porque não recomeçar é desistir para sempre. E isso é a morte. A vida só os perseverantes vão obter. Recomeçar é perseverar com sua fé na vida. Persevere, pois.

Márcio Rosa da Silva

Vinicius de Moraes foi quem disse a frase do título no meio do Samba da Benção, linda canção do poeta e diplomata. Ele ainda completou dizendo: “embora haja tanto desencontro pela vida”. A vida só faz algum sentido por conta de nossos encontros e desencontros.

Quando criança tudo o que se quer é o conforto do colo materno, a segurança do abraço paterno e a alegria dos momentos fraternos descontraídos. Sair correndo para abraçar o pai, a mãe ou mesmo o tio na porta da escolinha é uma celebração. A celebração do encontro. Cedo aprendemos a celebrar esses momentos mágicos e cheios de afetos que são os encontros com os que amamos.

A adolescência chega e já não se quer a presença tão próxima dos pais, agora o encontro é outro, o primeiro amor, a primeira paixão. Ah, como é esperada a hora de ir para escola para ver a garota que faz sentir um frio no estômago, os batimentos cardíacos acelerarem e a boa secar. O primeiro amor é celebrado num mundo que se revela pleno de sentimentos. Mas como há tantos desencontros pela vida, na maioria das vezes aquele primeiro amor se desfaz e o mundo desaba. Mas outros virão.

Amigos, os encontros que duram a vida inteira. Como são raros, mas como são preciosos. O bom amigo não cobra a sua presença, mas parece estar sempre presente. Sabe se ausentar quando necessário e sabe estar presente quando se precisa dele. Mesmo quando se distanciam e ficam anos sem se falarem pessoalmente, quando se vêem os verdadeiros amigos celebram, sem cobranças, e continuam a conversa de onde tinham parado da última vez que se viram. É uma pena que haja distanciamentos, que amigos se afastem, e, às vezes, virem até inimigos.

E quando achamos uma pessoa a quem amamos e que nos ama também e percebemos que queremos estar com aquela pessoa todos os dias, a vida inteira? Que coisa fantástica. Daí a vida é só encontro. Nem sempre dá certo, mas vale a pena tentar.

Em meio a todos os encontros e desencontros, há Um que deseja se encontrar conosco, mas insistimos em pegar rotas outras. Ainda bem que Ele está em todos os caminhos. Bom é ter sensibilidade para perceber no sorriso carinhoso da criança, no olhar embevecido do apaixonado, no abraço afetuoso do pai e no colo sempre disponível da mãe, além de um momento especial com as pessoas que amamos, um encontro com Aquele que nos ama. Deus é amor. Se nossos encontros são celebrações de amor, também são reveladores da sutil presença dEle.

Eu sei, às vezes parece que Ele é quem se afastou de nós. Até o crucificado perguntou o porquê do abandono. Mas são momentos em que é necessário estar só. Acredite, eles são necessários. Bom é saber que chegará o dia em que nosso encontro com Ele será definitivo e não haverá mais desencontros.

Até lá, vamos fazendo nossa vida ter sentido nos aprimorando na arte do encontro.

 

Márcio Rosa da Silva

Eu ainda não cheguei àquela idade em que há certo desconforto com o próprio aniversário. Com o passar do tempo, alguns deixam de gostar do aniversário, porque ele será a lembrança de que há menos areia na parte de cima da ampulheta que na parte de baixo. Sei que esse tempo chegará pra mim, mas ainda gosto muito do meu aniversário. Sou encantado com a vida, gosto de celebrar cada dia, tento saborear cada momento.

Quando chega meu dia, fico sempre muito agradecido. A vida se renovou sobre mim, tenho saúde, tenho a quem amar e tenho quem me ame, sou um privilegiado. Tenho que ser grato.

É claro que também sempre reflito sobre os cálices amargos que a vida me fez beber. Intragáveis, pensei que morreria ao sorvê-los. A dor mais profunda de todas, despedir-me para sempre de meu irmão Afonso, ainda mostra-se presente com o simples fato de mencioná-la. Com isso, e com todas as outras perdas, aprendi que a vida também é feita de despedidas. Fazemos isso o tempo todo. O aniversário é um dia para se despedir do tempo que passou, olhar para trás e dar um aceno com olhar sereno. Depois, dar meia volta, olhar para frente e deixar-se surpreender com o que está por vir.

Nesse dia meu coração fica pleno de esperança. E espero muito, talvez isso seja um defeito. Quanto maiores as expectativas, maiores as chances de frustração. Mas não canso de esperar. Após dar adeus ao passado e me virar para o futuro, sorrio. As infinitas possibilidades que estão à minha frente, me encantam. Sei que são incertas, já aprendi isso também, mas essa incertidumbre torna a aventura toda ainda mais excitante. A vida totalmente previsível é impossível e, caso fosse possível, seria uma chatice, um tédio.

Exatamente porque presumo, apenas presumo, que para mim há mais areia na parte de cima da ampulheta, quero aproveitar de maneira intensa cada oportunidade. Quero andar por lugares ainda por mim desconhecidos, há tantas viagens ainda por fazer, trabalhar bastante para deixar um legado e ser relevante, estudar muito, porque há tanto por conhecer, abraçar meus pais como se fosse aquele mesmo menino que corria descalço pelas ruas de terra vermelha do paraná, conversar com amigos de maneira leve e despretensiosa mas mantê-los como joias preciosas, como um tesouro, beijar minha amada de maneira apaixonada como nos primeiros dias de namoro e afagar e amar os filhos que com ela terei como o maior presente que Deus a vida poderiam dar. Isso tudo é esperança, da qual, hoje, meu coração está transbordando.

Sem esperança não se vive, no máximo se sobrevive, talvez nem isso. Eu me recuso a existir assim. Quero viver mesmo. Por isso celebro o dia do meu aniversário. Que todos façamos assim. Prossigamos! Há muita vida à nossa espera.

Márcio Rosa da Silva

É lamentável que, ainda hoje, não tenhamos evoluído ao ponto de garantir os direitos mais elementares a todas as pessoas. Não basta reconhecer tais direitos, é necessário efetivá-los, sem qualquer distinção. A expressão “direitos humanos” gera reações inexplicáveis em algumas pessoas, que, ao que parece, entendem que nem todos os humanos são destinatários dos tais direitos. Há, nesse ponto de vista, grupos de pessoas que não são merecedoras dos mesmos direitos das pessoas “direitas” e “bem nascidas” (como detesto essa expressão). É claro que tais pessoas são direitas sob o próprio ponto de vista.

Há uma dificuldade enorme de aceitar as diferenças. Somos ainda tão primitivos que há nesse mundo discriminação por conta da cor da pele. Mas, evidentemente, em qualquer pesquisa que se faça, a maioria das pessoas diz que há racismo no Brasil, mas ninguém se reconhece racista. Preconceituoso é sempre o outro.

“É que Narciso acha feio o que não é espelho”, como canta Caetano. Assim, quem não professa a mesma crença é visto com desconfiança. Quem não tem o mesmo comportamento sexual é tido como abominação. Quem não adota o mesmo estilo de vida é torpe. Quem não tem a mesma convicção política é alienado. Quem não repete os mesmos dogmas é herege. O diferente está sempre errado.

Para além do elementar direito à vida e do sagrado direito à liberdade, é necessário avançar para igualdade. Mas a igualdade só será vivenciada quando os diferentes forem acolhidos, quando as diferenças não forem barreiras para a celebração da fraternidade.

Nossa Constituição Federal, em seu artigo 1º, lança como um dos fundamentos da República, o princípio da dignidade da pessoa humana. No artigo 3º, dispõe como objetivos fundamentais do país, “construir uma sociedade livre, justa e solidária”, e ainda “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. No tão citado artigo 5º, arremata dispondo que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

O texto fundante da nossa república afirma a igualdade e repele a discriminação de qualquer natureza. Por isso causa espécie que se queira negar direitos elementares a qualquer grupo de pessoas. Não me parece razoável que uma pessoa tenha negado o direito de constituir uma família por conta de sua orientação sexual, por exemplo, já que todos os brasileiros são iguais e não pode haver distinção de qualquer natureza.

Celebro, também, o fato de o texto fundante do cristianismo afirmar que “Deus não faz distinção de pessoas”. Mas lamento o fato de que muitos de seus seguidores discriminem de maneira tão contundente pessoas que não creem ou não vivem conforme suas crenças. Não preciso ter as mesmas crenças, nem adotar o mesmo comportamento que o outro para que o respeite. Mas não se pode negar direitos humanos fundamentais a quem quer que seja. Reconhecer esses direitos não quer dizer assumir o mesmo estilo de vida, mas apenas respeitá-lo.

Em tempos de celeuma por conta de direitos humanos, nunca é demais lembrar as palavras de um pastor, esse sim, verdadeiramente um defensor desses direitos, Martin Luther King Jr: “Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais”. Aspirou, tal pastor, o dia em que todas as pessoas, brancos e negros, pobres e ricos, judeus e gentios, católicos e protestantes “poderão se sentar junto à mesa da fraternidade”, sem qualquer distinção.

Márcio Rosa da Silva

Aquarela - Toquinho

Aquarela – Toquinho

Admiro como os poetas veem a vida. Na verdade os invejo. Eles conseguem transformar as mais duras inquietações, os mais difíceis dramas, as mais inafastáveis dúvidas, em beleza. Com sensibilidade de quem tem alma de artista e talento para usar as palavras, celebram a vida poetizando sobre amor, ódio, coragem, medo, dúvidas, lágrimas, risos. Alguns ainda conseguem colocar música na poesia e, com isso, tocam o coração de quem se rende à beleza.

Aconteceu comigo. Estava ouvindo o rádio – sim o rádio, nem a TV, nem a internet, conseguiram acabar com ele, como erroneamente se supunha – e ouvi “Aquarela” de Toquinho e Vinícius. Essa é uma daquelas canções que falam das questões mais profundas da vida humana, mas de forma leve, poética, lúdica, sem ser piegas, tampouco rasa.

Ao brincar com papel, tinta e pincel, a canção fala das múltiplas possibilidades diante da imprevisibilidade da vida. Convida à imaginação, a enxergar beleza onde há algo simples, trivial. Chama ao encantamento com o que se tem ao redor.

Há entretanto, uma parte da música em que o tom fica um pouco mais sério e a essência da poesia é revelada. É o momento em que o menino está diante de um muro, que na verdade é o futuro e a incerteza contida nele.

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.”

Vamos caminhando pela vida e o tempo vai nos engolindo. O futuro está diante de nós e vai se tornando presente a todo instante. Pretensiosamente tentamos pilotar esse futuro, guiar a vida pelas estradas que queremos, mas nem sempre conseguimos isso. A vida vai nos levando por caminhos outros. O futuro chega sem avisar, sem piedade, sem arrodeios. Sem pedir licença o tempo muda tudo. Daí fica o convite: rir ou chorar.

Diante da imprevisibilidade da vida, do futuro, de nada serve ter medo. Ele só paralisa. Cabe ter a disposição de prosseguir, desafiados a olhar a vida com mais encantamento e coragem. “Não nos cabe conhecer ou ver o que virá”, mas quando vir, a atitude pode ser de entrega ou enfrentamento. O fim dessa estrada “ninguém sabe bem ao certo onde vai dar”, mas antes que essa aquarela se torne descolorida, podemos fazer dela uma “linda passarela”.

O fim chegará, tudo vai perder a cor, mas se a passarela foi bonita, terá valido a pena. Fazer dessa estrada, dessa estada nesse mundão de Deus, um caminho bonito, colocando poesia, bondade, gentileza e amor por onde passar, faz toda a diferença.

Hoje, ouvir o velho rádio me fez ganhar o dia! Se o convite é para rir ou chorar, quero poder chorar e lamentar sempre que necessário, mas quero rir ainda mais, porque sei que há muito mais motivos para rir do que para chorar.


Márcio Rosa da Silva

ImagemNão gosto de colocar a humildade como uma virtude, porque talvez fique parecendo um discurso moralista, ou falso-moralista, baseado na exaltação dos pretensos virtuosos. Penso que seja algo mais do que isso, mais do que uma simples virtude, deve ser uma postura diante da vida, em todas as suas dimensões.

Humilde é o que sabe que não é superior a ninguém e, por isso mesmo, não é arrogante, nem soberbo. É humilde quem consegue reconhecer suas fragilidades, seus desacertos, sua incapacidade de compreender tudo o que há.

É preciso ter humildade diante das pessoas. Isso não é fácil numa sociedade que estimula a competitividade. Desde pequenos somos instigados a sermos os melhores em alguma área. Isso pode ser facilmente compreendido como ser “superior” aos demais. O ideal é que saibamos que não há ninguém nem maior, nem menor, mas iguais. E estejamos dispostos a servir uns aos outros.

É preciso ter humildade diante da morte. Ela a todos iguala e a ninguém poupa. Não há nenhuma arrogância que não seja ridícula à beira de um caixão ou de um túmulo. Todas caem por terra. São risíveis. Não há pessoa mais poderosa que não se desfaça em pó. Não há ninguém tão rico, tão poderoso, que consiga segurar em si mesmo a própria vida. O fato de a morte ser certa já é motivo para ser humilde.

É preciso ter humildade diante da vida também. Temos de reconhecer que não temos explicação para tudo nessa vida. Achar que sabe tudo da vida ou que tem explicação pra tudo é arrogância, estupidez.

Aliás, uma característica de quem sabe muito é reconhecer que sabe muito pouco. Porque quanto mais se conhece, mais fica evidente que há tanto para conhecer e há tanta coisa desconhecida e inexplicável.

Temos de olhar para a vida como quem sabe que ela é indomável. Que por mais que você tome cuidado e “saiba viver”, como diz a música, a vida é cheia de contingências, imprevistos, acidentes. É preciso ter humildade diante dela.

Olhe ao redor, quanto há pra conhecer nesse mundo, quanta complexidade, vive-se uma vida inteira e não se conhece o mundo todo. Quantas vidas, quantas realidades, quantas coisas ainda por descobrir e quanto ainda ficará desconhecido e inexplicável.

Se ampliarmos o olhar, veremos que nosso planeta é uma parte ínfima de um sistema solar, que é uma parte ínfima de uma galáxia, que é uma parte ínfima de um universo, que não se sabe até onde vai e parece ser infinito.

Uma das consequências da humildade é a gratidão. Quem é humilde é também grato. O arrogante, o soberbo, não sabe agradecer. Acha que quando alguém faz algo pra ele, não fez mais que a obrigação, que todos lhe devem algo, porque, afinal, ele é superior.

Mas o humilde agradece por tudo, porque não se acha merecedor de tanto.  E assim, é também grato pela vida. Ainda que não consiga explicar, nem entender os mistérios da vida, é grato pela beleza dela, é grato pelo fôlego de vida, considera como gracioso tudo o que tem e tudo o que recebe da vida.

Assim, também, de maneira humilde e grata, aproveita melhor a vida, aproveita melhor sua própria família, seus amigos e as pessoas ao redor.

É também muito grato a Deus, que, sendo maior que o universo, fez-se um de nós e se coloca como nosso amigo. Nem maior, nem menor, mas um amigo, que está sempre ao lado.

Mas pra isso, é preciso ser humilde.

Márcio Rosa da Silva

Gosto de observar as pessoas na rua. Enquanto andam de uma lado pra outro, absorvidos pelos seus problemas, encantados com suas alegrias, ou devastados com suas dores, eu fico sempre a imaginar que cada um é um universo. São vidas implicadas em relações complexas, mas que esbarram umas nas outras pelas ruas, completamente alheias do seu redor. Afinal, cada um já tem problemas demais, é o que se diz.

Tem uma pessoa, aqui na minha cidade, que reparo há anos. Uma senhora de cabelos curtos e grisalhos, aparentemente de origem asiática, com algum problema de ordem psiquiátrica, que anda pra cima e pra baixo, a pé, e sempre com várias volumosas sacolas em ambos os braços. Apesar do aparente distúrbio, ela está sempre com roupas limpas, com bom aspecto e com postura digna. Mas nunca a vi sem as sacolas que carrega. Nunca.

Não sei qual foi a origem dos problemas daquela senhora, qual foi sua trajetória até ser quem ela é hoje, mas, seja o que for, aquelas sacolas, aquele peso que ela carrega, devem ter um significado atrelado à gênese de seus distúrbios. Parece que ela não consegue se desvencilhar do peso que carrega, não consegue ficar livre, não consegue andar leve. Ainda que inúteis, os pesos estão sempre lá. Parece uma auto-sabotagem, uma punição de si mesma, um modo de não se livrar de um passado traumático.

Talvez, se pudéssemos enxergar mais do que o exterior, veríamos tantas outras pessoas pela rua carregando pesos inúteis. Mais que isso, além de inúteis, destrutivos. Há, realmente, muita gente que não consegue se livrar de pesos como culpa, medo, prisões criadas pela própria pessoa, ou impostas por outras, mas das quais não consegue se livrar. Alguns carregam, também, o peso de um passado traumático, do qual não conseguem se despedir. Arqueados, rastejam pela vida sem conseguirem usufruir dela de maneira mais leve.

Fico pensando em minha própria vida e tentando identificar essas sacolas desnecessárias. Já me livrei de vários pesos que me impediam de seguir a vida com mais leveza. Não quero uma religiosidade castradora e que aprisiona, tento me livrar disso o tempo todo. Não quero andar ao lado de gente mesquinha, manipuladora e que não sabe valorizar afetos, mas apenas usa os demais. Já me livrei de tentar cumprir expectativas alheias, enorme fardo para alguém que é apenas humano, frágil, provisório, limitado e falível. Quanto aos traumas do passado, é bom que fiquem por lá mesmo, para que não inviabilizem um presente bom e um futuro promissor.

Livres desses pesos, podemos aproveitar melhor esse formidável passeio que a vida pode ser e, quem sabe, viver, de fato, aquilo que um jovem nazareno disse há cerca de dois mil anos: “venham a mim todos os que estão fracos e sobrecarregados e receberão alívio, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

Márcio Rosa da Silva

Falar de significado é fazer um exercício de alteridade. Damos um significado a nós mesmos, mas isso também é feito pelas outras pessoas com relação a nós. O que significo para o outro não depende de mim, mas do outro. Eu posso me achar “o cara”, mas o outro pode me achar um estúpido. Posso ter-me em alta conta, mas o outro pode me achar deplorável. O que eu represento para o outro, depende do outro.

Mas ainda assim, posso dar eu mesmo um significado à minha vida, conforme o modo como a vivo. Como me vejo? Como me porto? Qual a minha visão da vida e do mundo? Isso afetará o significado que eu mesmo dou a minha vida.

O que uma pessoa que sempre pensa em quanto lucrar com as pessoas pensa da vida? Qual o significado que dá a sua própria vida e a dos outros? Olha para o outro sempre como fonte de lucro e usa a todos. Corre o risco de esquecer que lida com pessoas e não com animais ou máquinas. E também corre o risco de ela mesma tornar-se um animal ou uma máquina.

O cara que faz e acontece, produz muito, junta muita riqueza e se vê satisfeito com tudo. Mas se morrer repentinamente, o que deixará além de bens?

É preciso deixar mais que bens. É preciso deixar um rastro de afeto, de cuidado, de carinho, de amor. Se não deixar isso, não terá valido a pena. A vida só será significante se for vivida assim. Deixar um rastro de destruição, ódio, rancor, ingratidão, desprezo, maldade, de desamor, dá significado a vida, claro, mas um significado ruim, negativo, destrutivo.

Se você é alguém que apenas produz, ganha e acumula coisas, você se perdeu, tornou-se uma máquina, se desumanizou. Precisamos produzir, ganhar, acumular, mas não pode ser só isso. Essa não deve ser a razão da nossa vida. A vida é mais do que isso.

A vida só é verdadeira e plena por causa dos afetos, porque amamos e somos amados. A vida faz realmente sentido, quando há alguém, quanto temos alguém.

Imagine aquele dia alucinado, em que você trabalhou numa linha de produção do que quer que seja, ou num escritório qualquer lidando com uma pilha de papéis, produziu, produziu, produziu… Está exausto. Em que momento a vida fará mais sentido pra você? Quando você sai dali e encontra o amigo pra um café; quando dá um beijo na amada ou no amado; quando recebe o abraço paterno; quando é acolhido no colo materno; quando abraça uma criança que celebra sua chegada.

São tais coisas que fazem a vida ter significado, são esses laços de afeto que tornam nossa vida significante. Como diz a música “Fotografia”, de Leoni:

O que vai ficar na fotografia

São os laços invisíveis que havia

As cores, figuras, motivos


O sol passando sobre os amigos


Histórias, bebidas, sorrisos


E afeto em frente ao mar”

Somos seres feitos à imagem e semelhança de Deus e Deus é amor. Quando amamos nos assemelhamos a Deus, que é todo amor. Sem amor não há sentido para vida. Sem amor não há significado relevante para a vida.

Quem ama a vida, o trabalho, a cidade onde mora, quem ama os amigos, seu marido, sua mulher, quem ama seus filhos, seus pais, quem ama viver tem um significado relevante.

Quem ama, não de boca, de palavra apenas, esse é mentiroso, mas quem ama de verdade, esse já percebeu o verdadeiro valor da vida e a verdadeira riqueza da vida. Porque no final das contas “o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia”.

Márcio Rosa da Silva

Afonso Rosa

Afonso Rosa

Republico, abaixo, texto que escrevi há alguns anos, em homenagem a meu irmão, Afonso.

Hoje é 09 de julho, dia do aniversário de Boa Vista. Entretanto, quero pedir licença dos leitores para falar de outro assunto. 09 de julho também é o dia da Revolução Constitucionalista de 32, feriado no Estado de São Paulo, onde morei por um bom tempo e onde viveu o herói do qual quero falar. A Revolução Constitucionalista foi um movimento cheio de heroísmos, com destaque para os quatro jovens estudantes de Direito do Largo de São Francisco, que morreram no dia 23 de maio, já nos primeiros lances da revolução. Os paulistas pegaram em armas e foram à luta. Foram vencidos pelo poder central, mas o objetivo foi alcançado e a Assembléia Constituinte foi convocada, o que resultou na Constituição de 1934.

Pois bem, no dia 09 de julho de 1998, num dia chuvoso e triste, na cidade de São Paulo, palco daquela revolução, tombava um outro jovem herói, que como aqueles revolucionários de outrora, também havia lutado bravamente. Seu inimigo, entretanto, era outro: um câncer. Estou me referindo a Afonso Rosa, meu irmão caçula, que, com 16 anos de idade, teve um diagnóstico de câncer. Por dois anos lutou, e todos nós ao seu redor também nos entrincheiramos e lutamos, sem desfalecer. Várias foram as batalhas: cirurgia, radio, quimio, novas cirurgias. Em todas elas, aquele jovenzinho, ainda adolescente, agigantava-se. Escondia a própria dor para não nos deixar preocupados, mostrava-se um forte, encarnando o sábio conselho bíblico de que se “te mostrares fraco no dia da angústia, a tua força será pequena”.

Muitas pessoas se convertem ao evangelho em meio a uma situação de dor ou enfermidade. Meu irmão não, ele já servia ao Senhor antes da doença. Tenho orgulho do dia em que ele me disse que eu era o seu “pai na fé”. Durante os dois anos, em que sofreu todas as conseqüências da enfermidade e de seu tratamento, sua fé amadureceu. Certo dia um amigo nosso disse ao Afonso que todos estavam orando por sua cura, mas perguntou como seria se não houvesse cura. A resposta do meu irmão enche meus olhos de lágrimas e meu coração de orgulho: “Para mim basta a Graça de Deus, não vou perder a fé em Deus”. Dá para imaginar essa declaração saindo dos lábios de um menino de 17 de anos de idade? Meu irmão herói disse isso, reproduzindo semelhante declaração do apóstolo Paulo.

Realmente a cura não veio, mas meu irmão, qual os heróis revolucionários de 32, permaneceu altivo, firme, mesmo resignado não entregou os pontos, lutou até o último momento. Fazia dois meses que eu morava em Roraima, quando fui chamado para ir urgente a São Paulo porque a situação se agravara. Quando lá cheguei, dia 07 de julho de 1998, ele estava com a voz rouca e respirava com dificuldade, tudo causado por uma violenta e fulminante metástase. Quando ele me viu, perguntou: “Por que você veio? Estou só com uma pneumonia”. Claro que ele sabia de tudo o que ocorria, mas tentava inutilmente poupar-me.

Na manhã do dia 09 de julho ele já não falava mais. Com dificuldade gesticulou manifestando o desejo de ouvir um texto bíblico. Li o seguinte texto: “Nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”.

Algumas horas depois, no cair da tarde daquele 09 de julho frio, chuvoso e triste, tombava um herói, sucumbia a um inimigo contra o qual lutara com todas as forças. Mas desse herói pode-se dizer: combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé. Curta carreira, é verdade, mas heróica e exemplar. Meu maior e mais próximo exemplo de fé é o meu querido irmão Afonso Rosa. Mencionando uma expressão que li escrita por Villy Fomin, hoje meu irmão vê face a face o que contemplo apenas em parte.

Dia 09 de julho, dia de um herói.

Márcio Rosa da Silva

Twitter

Blog Stats

  • 149,398 hits

Algumas palavras sobre mim.

Professor de Direito na UFRR - Universidade Federal de Roraima.
Promotor de Justiça no MPRR - Ministério Público de Roraima.
Cristão que se pretende progressista.
Casado com a Clarissa, luz dos meus dias.
Um aprendiz.

%d blogueiros gostam disto: