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Refletindo sobre as motivações que o cristão tem para servir a Deus, vi que há muitas delas equivocadas e procurei fazer uma avaliação honesta sobre as minhas próprias motivações.

Resolvi excluir a “teologia do medo”, uma espécie de terrorismo em que as pessoas são levadas a cumprir um papel religioso, um desempenho que lhe é requerido sob pena de, caso não cumpra seu papel, estar debaixo de maldição, desprotegido, completamente exposto à sanha do inimigo que lhe destruirá, porque Deus nada poderá fazer em seu favor – isso segundo o que chamo de “teologia do medo”. Com isso tirei também o legalismo religioso padronizante.

Depois eliminei o desejo de ser recompensado, que é a espiritualidade interesseira. Aquela em que o sujeito serve a Deus para ganhar alguma coisa em troca. Ele contribui financeiramente porque quer receber dez vezes mais e, quando isso não acontece, exige de Deus que lhe dê seus “direitos”. Ou então ele dedica parte de seu tempo em atividades eclesiásticas, querendo que Deus o recompense de alguma forma e com bênçãos bem visíveis e palpáveis. Puro interesse.

Vi que era necessário também eliminar a vontade de pagar pela salvação. Tudo o que fizermos será insuficiente para pagar o impagável. Somente um foi capaz de pagar o preço e ele assim fez. Na cruz o preço foi pago e agora vivemos na dimensão da GRAÇA. Mas há pessoas que ainda estão debaixo de um jugo pesado, carregando fardos insuportáveis, porque entendem que devem pagar pela salvação. Na verdade são mal instruídas.

Pois bem, excluindo tudo isso, o que sobrou como motivação para servir a Deus? Aí vem a verdadeira motivação, aquilo que de fato nos impulsiona: o amor de Cristo. É o que Paulo escreve em 2ª aos Coríntios 5.14: “Porque o amor de Cristo nos constrange…”. Esse constrangimento a que o apóstolo se refere não é aquele que força, empurra pela violência, obriga a fazer algo, mas tem o sentido de impulso, ou seja, o amor de Cristo nos impulsiona, nos impele a servirmos a Deus. Essa é a verdadeira motivação.

Por que você deve aprender a servir? Porque Jesus veio como homem para servir. Mesmo sendo soberano Senhor, ele lavou os pés dos discípulos em explícita atitude de serviço. E o seu amor é tamanho que ficamos até constrangidos e servimos também. Por que perdoar as pessoas, mesmo quando entendemos que elas não merecem ou não pediram perdão? Porque enquanto Jesus era pregado na cruz, ele orou para que o Pai perdoasse os que lhe flagelavam e o seu amor nos constrange a fazer o mesmo. Por que devo amar a todos, amigos e inimigos? Porque Jesus tanto amou o mundo que morreu por todos, pelos seus acusadores, por aqueles que o condenaram à morte, pelos piores bandidos, por todos os piores homens e mulheres da história.

Finalmente, nossa motivação para evangelizarmos não deve ser o desejo de termos uma igreja muito grande, visível e “respeitada” pelos homens. A motivação deve ser o desejo de que outras pessoas conheçam o amor de Deus, a vontade de que outros experimentem a alegria, a paz, a graça e o perdão. Mas por quê? Porque o amor de Cristo nos constrange.

Márcio Rosa da Silva

Texto publicado na Folha de Boa Vista, no dia 24.05.2008.

Mandela

Mandela

O mundo perde muito de seu brilho com a partida de Mandela. Certamente tinha seus defeitos, mas suas virtudes em muito sobrepujaram eventuais erros e ele se tornou um gigante. Conseguiu encarnar como poucos o pacifismo, mesmo depois de ter ficado preso injustamente por 27 anos. Uma vez livre, não partiu para o revanchismo, mas liderou um movimento de reconciliação que sepultou o famigerado apartheid sem empurrar seu país para uma guerra civil. Inflamado por um desejo de justiça, não permitiu que a violência do encarceramento se transformasse em amargura, mas promoveu a paz. Não sem luta, claro.

Mandela é uma dessas pessoas das quais o mundo não é digno. Venceu o mal com o bem, quando o primeiro rompante nosso seria devolver na mesma moeda. Por muitíssimo menos exigimos vingança, destilamos ódio, queremos que nossos algozes penem. Ele trilhou outro caminho. Inconformado com a opressão de seu povo por uma minoria, exigiu igualdade. Preso, manteve-se comprometido com sua causa. Quiseram calá-lo na prisão, mas sua vida foi o mais retumbante discurso.

Depois de tanto tempo segregado, recebe o Prêmio Nobel da Paz, torna-se presidente da África do Sul e conduz um processo pacífico de transformação nacional que o tornou o Pai da Pátria.

Inspiração para quem sonha com liberdade e justiça, Mandela sempre será uma referência. Para mim, sempre será uma das pessoas que melhor encarnaram a proposta de Cristo. Tolerância, perdão, sede de justiça, promoção da paz, pilares da mensagem cristã, que Mandela viveu de maneira intensa e incontestável. Sua vida foi uma pregação eloquente do Evangelho. Sem tom professoral ou arrogância, ensinou através de sua vida, de suas atitudes, de sua coragem. Sua humildade nunca significou subserviência. Melhor pregação não há.

Entre tantas frases que ele tornou famosas, cito uma das que mostram sua crença de que valia a pena lutar para transformar corações e mentes: “Ninguém  nasce odiando outra pessoa devido à cor de sua pele, à sua origem ou ainda à sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar”. Ou seja, ele acreditava ser possível que as pessoas mudassem, quando muitos desistimos de apostar na raça humana. Expôs, também, o absurdo que é o racismo e a discriminação por qualquer razão, insistindo que o mundo poderia aprender a amar indistintamente.

Descanse em paz, Mandela. Sentiremos sua falta. O mundo ficou muito mais pobre. Mas seu legado ficará para sempre. Imagino a gratidão de seu povo sul-africano, ao mesmo tempo que lamentam a orfandade. Enquanto seus algozes irão para o lixo da história, sua memória seguirá inspirando gerações. Muito do bem que ainda se fará, será devido ao seu exemplo e sua vida.

 

Márcio Rosa da Silva

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Algumas palavras sobre mim.

Professor de Direito na UFRR - Universidade Federal de Roraima.
Promotor de Justiça no MPRR - Ministério Público de Roraima.
Cristão que se pretende progressista.
Casado com a Clarissa, luz dos meus dias.
Um aprendiz.

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