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O excesso de informação acerca do que ocorre no mundo, em vez de gerar maior sensibilidade quanto às tragédias alheias, de perto ou de longe, parece estar produzindo o oposto, indiferença. O mal que os outros sofrem é banal, desimportante, já está incorporado ao cotidiano. Famílias assistem barbaridades enquanto tomam uma refeição. Entre uma garfada e outra, mais uma escola da ONU é explodida na Faixa de Gaza, um corpo em estado de putrefação é encontrado num igarapé nos arredores da cidade, uma criança é estuprada e uma pessoa morre no hospital por falta de oxigênio. Mas a vida segue seu curso normalmente logo após a sesta.

O fato é que se o mal não atinge a nós mesmos, diretamente, ou a quem amamos, não nos importamos. A criancinha soterrada na escola em Gaza não é meu filho, meu sobrinho, meu neto, então tudo bem, é mais um número pra estatística. A mulher que morreu por falta de leito na UTI, ou por falta de oxigênio hospital, não era minha parente, nem minha amiga, era uma pobre qualquer, então tudo bem, acontece, é normal. Essa banalização do mal e esse distanciamento do sofrimento alheio estão nos tornando insensíveis.

Algumas crenças religiosas ajudam pra que essa indiferença aconteça. Quando a pregação diz que tudo acontece pela vontade de Deus, que Ele determina cada acontecimento do Universo, por menor que seja, e tem um propósito em tudo, essa mensagem está querendo dizer que é tudo normal, é tudo assim mesmo, Deus quis assim, não há o que fazer. Esse dogma é muito eficaz para que a maldade permaneça e que ninguém faça nada pra mudar, porque, afinal, Deus determinou, quem sou eu pra mudar?

Mas Deus não quis soterrar aquela criança em Gaza, nem quis que aquela garotinha fosse vítima de um pedófilo, nem quis que aquela mulher morresse por falta de leito na UTI, nem quis um jovem morresse de maneira estúpida num acidente de trânsito. Se entendermos que tudo foi porque Deus quis, então nos aquietamos e deixamos tudo como está: alguém vai continuar desviando o dinheiro que compraria mais um leito na UTI, o pedófilo vai continuar à solta estuprando criancinhas, o trânsito vai continuar violento e matando jovens e as bombas continuarão caindo nas cabeças de crianças inocentes.

Não podemos nos aquietar. Não podemos nos tornar insensíveis só porque não está acontecendo conosco! Se há uma coisa que o pregador nazareno, chamado Cristo, não quer, é que tenhamos uma paz nirvânica enquanto o mundo desaba ao nosso redor. Quando as mazelas que ocorrem ao seu redor não te incomodam, não significa que você está em paz, significa que você se tornou um insensível.

É claro que não podemos mudar o mundo inteiro e banir o mal, mas temos que fazer o possível, que, por mais insignificante que pareça, é infinitamente melhor que se omitir.

Quem está com faminto faz todo o possível pra matar sua fome e, enquanto não consegue se saciar, não sossega. Por isso mesmo é bem aventurado quem tem fome e sede de justiça. Porque não se acomoda com o mal, mas se move de alguma maneira pra matar sua fome. Não fica parado diante das injustiças e da maldade que campeia. Pois que haja mais fome e mais sede no mundo, mas de justiça. Só assim haverá mais bondade e solidariedade numa sociedade que parece cada vez mais indiferente.

Márcio Rosa da Silva

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Todos temos a capacidade inata de fazermos o bem e o mal. É da nossa natureza fazer coisas magníficas e coisas terríveis. Provocar alegria e felicidade nos outros e também dor e tristeza. Podemos promover a vida ou a morte. Nossas mãos podem produzir o bem ou o mal. Isso é humano.

O ser humano é o que há de melhor no mundo, mas também é o que há de pior. E quando fazemos o mal, o fazemos porque decidimos isso. Não há uma força espiritual maligna externa que incorpora em nós e, então, fazemos o mal. Fosse assim não teríamos responsabilidade alguma sobre o mal que praticamos. Assim também quando fazemos o bem, isso também é uma decisão.

O diabo ou satanás geralmente é imaginado como um capeta, um ser vermelho, com chifres, rabo, um tridente e fedendo a enxofre. Mas isso é folclore que é reforçado pelas supostas demonstrações de possessão demoníaca, amplamente relatadas pelas religiões e até pelo cinema.

Ora, momentos antes de efetivamente trair Jesus, Judas ficou possesso porque, segundo relato de Lucas, “Satanás entrou nele”. E como ficou Judas? Babando, com voz gutural, gritando igual a um louco? Não! Ele ficou com voz mansa, falando baixinho e conspirando com os sacerdotes, sim, os homens donos da religião, dentro do templo, contra Jesus. Mas estava possesso.

Satanás e a personificação do mal. Não é um antagonista de Deus. Não é um deus que rivaliza com Deus numa eterna batalha cósmica entre deuses. É a representação do mal que rivaliza com Deus no nosso coração. Mas quem vai definir o ganhador somos nós. Porque Deus não se impõe, mas propõe caminhos, que poderão, ou não, ser aceitos.

As possibilidades de praticar o mal estão sempre ao alcance. Judas não foi uma vítima, ele desejou o mal. E ninguém vira um Judas Iscariotes da noite pro dia. Isso vai acontecendo aos poucos, você vai deixando o mal entrar com atos isolados. Vai cometendo pequenos atos de crueldade, de maldade, de violência. Pequenos atos de egoísmo, de avareza. Pequenos atos de insensibilidade, de indiferença. Quando perceber já está possesso pelo mal.

Judas não teve um insight e foi trair Jesus. Ele, certamente, já vinha pensando nisso. Esses pensamentos já vinham rondando-o. O que ele fez foi deixar se apoderar pelo mal, que transbordou na efetiva prática da maldade.

E ainda sobre a ideia folclórica de satanás, ele sempre é ligado a ambientes marginais, prostíbulos, bocas de fumo ou entre bandidos declarados, etc. Mas Judas, uma vez possesso, não vai a nenhum desses lugares, mas para o templo, um lugar supostamente “santo”. Onde há pessoas, ali há a possibilidade do bem e do mal. Onde quer que estejam. Quer estejam num prostíbulo ou numa igreja, em ambos os ambientes há possibilidade de praticar o bem e o mal.

É preciso vigiar para que o mal não se apodere de nós. Para que o mal não se aninhe em nosso coração. Para que não sejamos dominados por ele.

Em vez de ir praticando pequenas maldades, praticar pequenas bondades, pequenos atos de gentileza, pequenas demonstrações de amor ao próximo, em especial aos mais próximos, sua família e amigos.

É assim que o mal vai sendo exorcizado, é assim que o diabo será resistido, mesmo estando sempre ao redor, e o bem poderá prevalecer.

Márcio Rosa da Silva

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Algumas palavras sobre mim.

Professor de Direito na UFRR - Universidade Federal de Roraima.
Promotor de Justiça no MPRR - Ministério Público de Roraima.
Cristão que se pretende progressista.
Casado com a Clarissa, luz dos meus dias.
Um aprendiz.

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