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Refletindo sobre as motivações que o cristão tem para servir a Deus, vi que há muitas delas equivocadas e procurei fazer uma avaliação honesta sobre as minhas próprias motivações.

Resolvi excluir a “teologia do medo”, uma espécie de terrorismo em que as pessoas são levadas a cumprir um papel religioso, um desempenho que lhe é requerido sob pena de, caso não cumpra seu papel, estar debaixo de maldição, desprotegido, completamente exposto à sanha do inimigo que lhe destruirá, porque Deus nada poderá fazer em seu favor – isso segundo o que chamo de “teologia do medo”. Com isso tirei também o legalismo religioso padronizante.

Depois eliminei o desejo de ser recompensado, que é a espiritualidade interesseira. Aquela em que o sujeito serve a Deus para ganhar alguma coisa em troca. Ele contribui financeiramente porque quer receber dez vezes mais e, quando isso não acontece, exige de Deus que lhe dê seus “direitos”. Ou então ele dedica parte de seu tempo em atividades eclesiásticas, querendo que Deus o recompense de alguma forma e com bênçãos bem visíveis e palpáveis. Puro interesse.

Vi que era necessário também eliminar a vontade de pagar pela salvação. Tudo o que fizermos será insuficiente para pagar o impagável. Somente um foi capaz de pagar o preço e ele assim fez. Na cruz o preço foi pago e agora vivemos na dimensão da GRAÇA. Mas há pessoas que ainda estão debaixo de um jugo pesado, carregando fardos insuportáveis, porque entendem que devem pagar pela salvação. Na verdade são mal instruídas.

Pois bem, excluindo tudo isso, o que sobrou como motivação para servir a Deus? Aí vem a verdadeira motivação, aquilo que de fato nos impulsiona: o amor de Cristo. É o que Paulo escreve em 2ª aos Coríntios 5.14: “Porque o amor de Cristo nos constrange…”. Esse constrangimento a que o apóstolo se refere não é aquele que força, empurra pela violência, obriga a fazer algo, mas tem o sentido de impulso, ou seja, o amor de Cristo nos impulsiona, nos impele a servirmos a Deus. Essa é a verdadeira motivação.

Por que você deve aprender a servir? Porque Jesus veio como homem para servir. Mesmo sendo soberano Senhor, ele lavou os pés dos discípulos em explícita atitude de serviço. E o seu amor é tamanho que ficamos até constrangidos e servimos também. Por que perdoar as pessoas, mesmo quando entendemos que elas não merecem ou não pediram perdão? Porque enquanto Jesus era pregado na cruz, ele orou para que o Pai perdoasse os que lhe flagelavam e o seu amor nos constrange a fazer o mesmo. Por que devo amar a todos, amigos e inimigos? Porque Jesus tanto amou o mundo que morreu por todos, pelos seus acusadores, por aqueles que o condenaram à morte, pelos piores bandidos, por todos os piores homens e mulheres da história.

Finalmente, nossa motivação para evangelizarmos não deve ser o desejo de termos uma igreja muito grande, visível e “respeitada” pelos homens. A motivação deve ser o desejo de que outras pessoas conheçam o amor de Deus, a vontade de que outros experimentem a alegria, a paz, a graça e o perdão. Mas por quê? Porque o amor de Cristo nos constrange.

Márcio Rosa da Silva

Texto publicado na Folha de Boa Vista, no dia 24.05.2008.

Menina chorando - Gaza - Crédito AFP

Menina chorando – Gaza – Crédito AFP

Não sou especialista em Oriente Médio, nem em guerras, nem em geopolítica. Mas sou humano. E o que vejo são centenas de seres humanos sendo assassinados desde o início da operação Margem Protetora, do Estado de Israel, contra a população de Gaza, que se espreme numa minúscula faixa de terra. Entre as vítimas, muitas crianças, velhos e mulheres grávidas. E não precisa ser especialista para saber que isso é absolutamente condenável. Basta ter um mínimo de bom senso para afirmar que bombardear uma escola da ONU e matar dezenas de crianças é um crime de guerra, como até os Estados Unidos, parceiro incondicional de Israel, reconheceu.

Para mim, o que está havendo é um massacre. As pessoas de Gaza são avisadas para deixarem suas casas porque serão bombardeadas. Mas para onde irão? As fronteiras com Israel e com Egito estão fechadas e sequer para o mar podem fugir, porque também está fechado pelas forças armadas de Israel. É um povo que precisa se refugiar e não tem onde!

Não há dúvida de que as forças são incomparáveis. Israel tem um poderio bélico gigante e um serviço de inteligência avançadíssimo. Por isso mesmo, se quisesse tão-só destruir os túneis cavados pelo Hamas que adentram território israelense, poderiam fazê-lo sem matar um civil sequer. Mas não é só isso que estamos vendo. Casas, escolas, mesquitas, central elétrica, hospitais, nada escapa aos bombardeios. Se o alvo é o Hamas, o Estado de Israel teria toda condição de capturar os membros dessa organização, submetê-los a julgamento e condená-los, se fosse o caso.

Não há direito de defesa que justifique a morte de crianças e civis inocentes. Sou contra qualquer tipo de terrorismo, do Hamas, da Al-Qaeda ou de qualquer outro organismo. Mas também sou contra a política de guerra de Israel, que impõe o terror e o horror a gente que não tem pra onde ir e se vê em meio a um massacre.

Além do horror da guerra, algo que me choca é a frieza com que alguns reagem ao que está acontecendo. Os mais cínicos dizem que não há com que se preocupar porque tudo isso “é o cumprimento das profecias bíblicas”. Outros chegam a dizer que é necessário até se alegrar porque é “a palavra de Deus se cumprindo”. A que ponto chega a insensibilidade das pessoas! Crianças estão morrendo! Se um deus está no controle disso e determinou a queda de cada bomba sobre as cabeças daquelas crianças, ele não é Deus, mas um demônio. Na verdade Deus não tem nada com isso, é a maldade humana mesmo. Que religião é essa que está produzindo gente tão insensível?

Se é pra ter um lado, fico do lado dos oprimidos, dos que sofrem, dos que são estrangeiros na própria terra. O judeu Jesus Cristo, a quem tento seguir, disse certa vez, que no juízo final dirá a alguns: “fui estrangeiro e vocês me acolheram”. Ao ser perguntado quando ele tinha sido estrangeiro, respondeu que quando fizeram isso a qualquer pessoa, fizeram a ele. Jesus tem lado nessa história, e é o lado de homens, mulheres, crianças e idosos, que estão sendo tratados como estrangeiros indesejados na própria terra. A face deles é a face de Jesus entre nós. Ao ficar ao lado dos palestinos que sofrem em Gaza estou em boa companhia e do lado da vida, não da morte, do lado paz e não da guerra. Que haja paz em toda parte e que esse banho de sangue cesse!

Márcio Rosa da Silva

Qual é o limite da maldade humana? Será que já vimos todo o mal que o ser humano é capaz de fazer? Se as pessoas são capazes de fazer coisas terríveis, ainda é possível acreditar nelas? Será que haverá um tempo em que todos viverão sob justiça e paz, numa grande fraternidade?

Pois é. Jesus foi prova do nível a que pode chegar a maldade humana. Mataram-no da maneira mais dolorosa e vergonhosa da época. E aquilo foi apenas uma amostra do que já acontecia e do que continuaria acontecendo. A maldade sempre esteve presente nas relações humanas, desde que o mundo é mundo. Campos de concentração, explorações de toda ordem, desamor, abandonos, assassinatos, guerras.

Mas ele também foi a prova de que, mesmo assim, é possível apostar no ser humano, tanto que entregou sua vida, amou até às últimas consequências. Achou que valia a pena.

É necessário apostar no humano, porque, apesar de toda maldade que conhecemos ser humana, toda bondade também é. Tudo o que vemos de maldade e bondade, são práticas humanas.

Há teologias que afirmam que o ser humano é mal e não há nada de bom nele. Não posso concordar. Claro que há coisas boas no humano. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Por mais que essa imagem esteja enfraquecida, ela está lá.

Temos a capacidade de fazer o mal, mas também o bem. E há tanto bem sendo feito por aí, ainda que de maneira anônima. Há pessoas adotando crianças que foram abandonadas porque tinham paralisia mental. Há médicos que realmente se doam em lugares inóspitos, para salvar vidas. Há missionários pregando onde nenhum televangelista quer ir. Há palhaços alegrando a dolorosa vida de crianças doentes nos hospitais. Há gente levando café da manhã para pessoas muito pobres e desprovidas de qualquer conforto. Há gente lutando contra a prostituição e o trabalho infantis.

É necessário apostar no ser humano, porque todas nossas maiores alegrias provém de pessoas. Muito embora nossas mais agudas tristezas também.

É verdadeira a afirmação de que o inferno são os outros. Nossas maiores tristezas vem de algo relacionado a outras pessoas. E muitas pessoas são impiedosas, julgam, maldizem, ferem, magoam, traem, praticam o mal mesmo. Sem dó nem piedade. Um inferno.

Mas também o paraíso são os outros. Nossas maiores alegrias são provenientes dos outros. Precisamos dos outros, que são nossas referências. É através dos outros que descobrimos nosso significado. Aprendemos que significamos algo para alguém quando somos amados, por exemplo. Você significa muito para quem ama você. E isso te leva ao paraíso. Amar e ser amado é experimentar o céu.

Se as pessoas mais próximas são as que podem nos ferir da maneira mais dolorosa, também são elas que podem nos alegrar da maneira mais intensa. O abraço de um filho, um beijo apaixonado, o carinho do pai, o colo da mãe. Tudo vindo de pessoas.

É necessário apostar no humano, porque se a maldade parece não ter limites e nos faz, tantas vezes descrer nas pessoas, toda a bondade que podemos ver e experimentar são ações humanas, o que nos chama a continuar crendo no próximo.

 

Márcio Rosa da Silva

Pilatos, aquele que entrou pra história como o que lavou as mãos, jogava pra plateia. Cínica plateia. Ele decidia as questões num lugar chamado pretório. Os líderes religiosos, repito, religiosos, que queriam a morte de Jesus não entraram no pretório, porque não queriam se “contaminar” naquele lugar profano. CÍNICOS.

Tendo convicção que Jesus era inocente, Pilatos manda-o pra outra jurisdição, a de Herodes, que também se nega a condena-lo à morte e o devolve para Pilatos. Sofrendo pressão, tenta transferir a responsabilidade para a multidão quando oferece Barrabás. Mas eles insistem em pedir a morte de Jesus e a soltura do assassino.

Então Pilatos lava as mãos e entrega um inocente à sanha de uma multidão com sangue nos olhos.

Mas quem tinha autoridade para mandar matar era somente Pilatos. Sendo o representante do império romano na Palestina, só ele tinha tais poderes. Ele é quem assina a sentença de morte de Jesus. Se quisesse poderia ter evitado essa injustiça.

Não evitando essa maldade, podendo fazê-lo, tornou-se responsável por ela, co-autor de uma perversidade.

Quais são as maldades e injustiças que podemos evitar e não fazemos? Quantas vezes lavamos as mãos e uma maldade se concretiza, quando poderíamos tê-la evitado?

Grandes e pequenas maldades. Sempre pensamos nas grandes, nas guerras, nas tremendas injustiças. Mas há aquelas menores, aqueles “pequenos” conflitos, aquelas inimizades geradas por uma fofoca, uma maledicência, uma perversidade destilada à boca pequena. Quando isso chega a você e você pode evitar um mal maior, o que você faz? Intervém e põe fim a isso, ou propaga, ou simplesmente se omite e não sai em defesa da verdade?

Silenciar diante de uma injustiça, é ser injusto também. Omitir-se diante de uma maldade, é ser perverso também.

Pilatos lavou as mãos porque não queria arriscar sua posição na província. Estava confortavelmente assentado na cadeira de governador. Mesmo convencido de que Jesus era inocente, não o absolve, não o livra da morte injusta. Isso implicaria em uma rebelião porque estavam ameaçando-o de dizerem pra César que ele, Pilatos, também era contra César, já que estava “apoiando” alguém que se dizia rei. Assim, ele não enfrenta o mal, porque não queria correr riscos, não queria abrir mão do conforto.

A mesma coisa conosco. Não quer correr riscos, não enfrente a maldade. Mas assim será responsável por ela. A indiferença é igual ao cometimento da maldade, se posso agir para evita-la.

Quando Rosa Parks foi presa por se recusar a ceder o lugar para um homem branco no ônibus, o reverendo Martin Luther King Jr, poderia ter continuado em sua congregação dizendo que não poderiam enfrentar as autoridades, afinal, toda autoridade foi constituída por Deus. Continuaria pastoreando e talvez estivesse vivo até hoje, bem velhinho, pregando em sua igreja. Morreria bem confortável com os filhos ao redor, numa cama quentinha.

Mas ele enfrentou o mal, aquilo era uma tremenda injustiça. Ficou ao lado da velha empregada doméstica e contra a injustiça. Foi assassinado, mas não foi conivente com a maldade e com a injustiça. E os Estados Unidos nunca mais foram os mesmos.

Mas quem está disposto?

Márcio Rosa da Silva

Praticamente todas as nossas relações são baseadas em poder. O Estado, com sua pesada estrutura de poder sobre os cidadãos, as relações de trabalho – sempre tem um chefe,  financeiras – quem tem mais dinheiro tem mais poder, e até familiares, em que os pais mandam nos filhos – pelo menos teoricamente.

Até bem pouco tempo o marido mandava na mulher. A família era totalmente baseada numa relação de poder. Não se podia questionar e, por isso mesmo, “funcionava”. Quando se descobre que as relações entre marido e mulher devem ser baseadas no amor e não no poder, as coisas ficam confusas, porque muda-se a base de toda a estrutura. Até hoje alguns querem impor a funcionalidade do casamento pela força, e, claro, isso não dá certo. Ou é por amor, ou não há casamento. Não pode ser uma relação de poder.

Todos querem algum poder, ainda que mínimo. Nem que seja aquele poderzinho do burocrata que está atrás do balcão e quer mostrar autoridade perante o cidadão que o procura. Ou aquele que é pisado por todos no trabalho e quando chega em casa tiraniza mulher e filhos. É a síndrome do pequeno poder.

Na imagem que as pessoas fazem de Deus também prevalece a lógica da imposição pelo poder. Nossa cultura judaico-cristã-ocidental impôs uma ideia de Deus como sendo um homem forte, sentado sobre um trono, como um rei medieval, exigindo ser bajulado, vingativo e controlador ferrenho. E onipotente, claro. Pede-se que Deus proveja tudo, livre dos percalços da vida e vingue os inimigos, de preferência eliminando-os, afinal, Ele tem todo poder.

Mas quem é a imagem de Deus? Cristo, homem. Um rapaz que viveu na Palestina há uns dois mil anos. Por vezes riu, por vezes chorou. Festou muito, inclusive não deixando o vinho acabar num casamento, mas também chorou por amigos que morreram. Virou as mesas de cambistas do templo e tinha sangue nos olhos ao condenar exploradores da fé alheia, desfazendo a ideia de um Jesus cândido e impassível. Também extremamente amoroso e acolhedor, tinha bom trato com crianças e pessoas marginalizadas.

Deus que se fez homem mortal. Tendo todo o poder, abriu mão. Fez-se um de nós. Por isso mesmo, é risível esse pessoal que, porque tem um crachazinho qualquer, já vem com o bordão “você sabe com quem está falando”, porque julga ser alguma coisa, quando Cristo sendo Deus, repito, sendo o maioral de toda a eternidade, causa de todas as coisas, início e fim de tudo, não achou que isso era algo a que devia se apegar. Ele não fez conta disso e esvaziou-se assumindo nossa humanidade em tudo, inclusive na morte, e na humilhante morte de cruz.

Jesus muda as coisas e propõe outro caminho, que nossas relações com Deus e com as pessoas deixem de ser baseados no poder e sejam, sempre, baseadas no amor.

Mas, no fundo, queríamos um Cristo poderoso que vingasse nossos inimigos e se impusesse pela força. Seria tudo muito mais prático, isso resolveria logo tudo, acabaria com toda maldade, e todos o respeitariam. Mas o Cristo dos Evangelhos não é assim. A proposta dele é outra, o amor em lugar da força.  E ele é a exata expressão do Pai. Deus é igualzinho a Jesus. Um Deus que se fragiliza, que não se impõe, mas que se aproxima de nós na nossa humanidade e nos convida a seguir seu exemplo.

Mas quem está disposto?

Márcio Rosa da Silva

Todos temos a capacidade inata de fazermos o bem e o mal. É da nossa natureza fazer coisas magníficas e coisas terríveis. Provocar alegria e felicidade nos outros e também dor e tristeza. Podemos promover a vida ou a morte. Nossas mãos podem produzir o bem ou o mal. Isso é humano.

O ser humano é o que há de melhor no mundo, mas também é o que há de pior. E quando fazemos o mal, o fazemos porque decidimos isso. Não há uma força espiritual maligna externa que incorpora em nós e, então, fazemos o mal. Fosse assim não teríamos responsabilidade alguma sobre o mal que praticamos. Assim também quando fazemos o bem, isso também é uma decisão.

O diabo ou satanás geralmente é imaginado como um capeta, um ser vermelho, com chifres, rabo, um tridente e fedendo a enxofre. Mas isso é folclore que é reforçado pelas supostas demonstrações de possessão demoníaca, amplamente relatadas pelas religiões e até pelo cinema.

Ora, momentos antes de efetivamente trair Jesus, Judas ficou possesso porque, segundo relato de Lucas, “Satanás entrou nele”. E como ficou Judas? Babando, com voz gutural, gritando igual a um louco? Não! Ele ficou com voz mansa, falando baixinho e conspirando com os sacerdotes, sim, os homens donos da religião, dentro do templo, contra Jesus. Mas estava possesso.

Satanás e a personificação do mal. Não é um antagonista de Deus. Não é um deus que rivaliza com Deus numa eterna batalha cósmica entre deuses. É a representação do mal que rivaliza com Deus no nosso coração. Mas quem vai definir o ganhador somos nós. Porque Deus não se impõe, mas propõe caminhos, que poderão, ou não, ser aceitos.

As possibilidades de praticar o mal estão sempre ao alcance. Judas não foi uma vítima, ele desejou o mal. E ninguém vira um Judas Iscariotes da noite pro dia. Isso vai acontecendo aos poucos, você vai deixando o mal entrar com atos isolados. Vai cometendo pequenos atos de crueldade, de maldade, de violência. Pequenos atos de egoísmo, de avareza. Pequenos atos de insensibilidade, de indiferença. Quando perceber já está possesso pelo mal.

Judas não teve um insight e foi trair Jesus. Ele, certamente, já vinha pensando nisso. Esses pensamentos já vinham rondando-o. O que ele fez foi deixar se apoderar pelo mal, que transbordou na efetiva prática da maldade.

E ainda sobre a ideia folclórica de satanás, ele sempre é ligado a ambientes marginais, prostíbulos, bocas de fumo ou entre bandidos declarados, etc. Mas Judas, uma vez possesso, não vai a nenhum desses lugares, mas para o templo, um lugar supostamente “santo”. Onde há pessoas, ali há a possibilidade do bem e do mal. Onde quer que estejam. Quer estejam num prostíbulo ou numa igreja, em ambos os ambientes há possibilidade de praticar o bem e o mal.

É preciso vigiar para que o mal não se apodere de nós. Para que o mal não se aninhe em nosso coração. Para que não sejamos dominados por ele.

Em vez de ir praticando pequenas maldades, praticar pequenas bondades, pequenos atos de gentileza, pequenas demonstrações de amor ao próximo, em especial aos mais próximos, sua família e amigos.

É assim que o mal vai sendo exorcizado, é assim que o diabo será resistido, mesmo estando sempre ao redor, e o bem poderá prevalecer.

Márcio Rosa da Silva

Os caras vinham com umas roupas muito caras, jóias penduradas pelo corpo, robustos e com bochechas rosadas, rindo alto. Um deles contou da última grande compra de camelos da melhor qualidade que tinha feito e o outro da última viagem para as ilhas gregas, tinha ainda um terceiro que se gabava de ter comprado por uma fábula a cidadania romana. Eram espalhafatosos, de tantos adereços, o andar deles já era barulhento. Pararam em frente do gazofilácio e derramaram ali uma polpuda quantidade de moedas de ouro sob o olhar risonho do sacerdote, que os convidara para tomar um vinhozinho com o sumo-sacerdote, afinal eram homens piedosos e que contribuíam muito para o templo e para a “obra de Deus”.

A mulher veio com uma roupa bem simples, monocromática, mas tinha um ar sereno e digno. Seu rosto, única parte do corpo exposta, tinha pele sulcada pelo sofrimento e queimada pelo sol inclemente da palestina. Não era velha, mas as marcas no rosto não negavam sua história dor e de trabalho duro. Era viúva. Mesmo assim não tinha aquele semblante de quem se faz de vítima do universo, não parecia uma coitada, guardava dignidade em seu porte. Ela chegou na caixa de ofertas e de um pequeno embornal tirou duas moedas e colocou lá. Baixou a cabeça fez uma rápida oração de gratidão a Deus e dali voltou pra sua rotina, passando despercebida pelos sacerdotes que oficiavam no templo. Eles estavam ocupados dando gargalhadas e tomando vinho com os espalhafatosos endinheirados.

Mas por ali andava também um sábio mestre, um rabi, chamado Jesus, junto com alguns discípulos. Ele viu as duas cenas e afirmou categoricamente: a mulher ofertou mais do que todos. Os primeiros deram daquilo que lhes sobrava, a mulher, de sua pobreza, deu tudo o que tinha. As duas pequenas moedas tinham muito maior valor do que as dezenas de moedas de ouro dadas pelos ricos. No mercado corrente, estas valiam muito mais, mas quanto ao valor do gesto, aquelas eram bem mais preciosas.

Ele queria ensinar que há muita diferença entre preço e valor. Mais ainda, que as pessoas não valem o dinheiro que têm, que ninguém deve ser precificado ou apreciado pelos bens que possui. Quem assim o faz, na verdade não possui os bens, mas é possuído por eles. Infelizmente as coisas são as mesmas desde a época de Jesus e não há novo debaixo do céu. As pessoas continuam sendo precificadas e o que há de maior valor continua sendo desprezado.

A proposta de Jesus é radical. O gesto vale mais que o dinheiro. Realmente, como diz o famoso comercial de cartão de crédito – que ironia – há coisas que não têm preço. Muitas se compram com dinheiro, mas há uma infinidade de outras que, de tão caras, só se conseguem de graça. Um abraço sincero, uma lágrima solidária, uma pequena ajuda num momento de necessidade, o sorriso de um filho, um beijo apaixonado. Coisas que tem muito valor, mas que não têm preço.

A mulher era a mais pobre e a que mais ofertou naquele dia. Os ricos deram muito pouco, quase nada. Lógica invertida essa do Reino de Deus. Acho que já é hora de subvertermos também a lógica predominante. Dar menos valor ao dinheiro e muito, muito mais valor ao que realmente importa.

 

Márcio Rosa da Silva

A ignorância é uma terrível forma de cegueira. É libertador conhecer e, através do conhecimento, enxergar. Imagine uma pessoa analfabeta, como ela enxerga o mundo? Para ela, olhar um livro é sentir-se um pouco cega, porque olha mas não enxerga nada a não ser um código indecifrável. Uma vez alfabetizada, ela passa a “enxergar”, era cega e agora vê. Aquele código já não é mais indecifrável. Essa pessoa veio das trevas para a luz.

O velho ditado é uma verdade, o pior cego é o que não quer ver. É preciso querer enxergar. Romper com as correntes da ignorância a assumir a liberdade do conhecimento, arcando com as responsabilidades disso. O personagem de Matrix que prefere continuar no mundo virtual, portanto irreal, sintetiza bem o medo que muitos têm do conhecimento, quando diz: “A ignorância é uma benção”.

A ignorância é confortável porque se você desconhece, alguém vai sempre dizer as coisas pra você, sempre haverá alguém que vai decidir o caminho que você deve andar. Você nunca precisará tomar decisões.

Veja como isso é contrário à proposta de Jesus, que desejou que as pessoas fossem autônomas, adultas, maduras, livres: “Vocês conhecerão a verdade e a verdade os libertará”.

A ilusão também é confortável. Há muita gente iludida que quer permanecer assim. Isso acontece demais no ambiente religioso. É sabido que, por exemplo, a teologia da prosperidade, aquela que promete mundos e fundos a quem cumprir o que os líderes mandam, é uma furada. Mas prefere-se continuar acreditando.

É claro que não há uma redoma protegendo o cristão dos percalços da vida, pois o tempo e o acaso atingem a todos, mas prefere-se continuar crendo na ilusão de uma vida redondinha, toda certinha, sem nenhum imprevisto, afinal, “Deus está no controle de tudo”. Uma ilusão que não resiste à realidade imposta pela vida.

Mas por que as pessoas se recusam a enxergar a realidade? Porque o processo de desilusão é doloroso. O Nobel de Literatura José Saramago, no célebre “Um ensaio sobre a cegueira”, coloca na boca de um personagem: “Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego”.

É preciso querer enxergar. Quem quer enxergar, saberá, e quererá, enxergar as feiúras do mundo ao redor, mas também terá a capacidade de ver também suas belezas.

Quem quiser continuar na ilusão, na mentira de uma espiritualidade que se resume à vida no templo, na igreja, nessa redoma religiosa, ok. Mas a proposta de Jesus é de uma espiritualidade viva, conectada com a vida. Uma espiritualidade que não fica orando para que a fome dos miseráveis seja saciada, mas que faz algo para que isso aconteça. Uma espiritualidade que não fica orando para Deus abençoar os analfabetos, mas que vai até eles e os alfabetiza.

Quem não se faz cego, rejeita uma espiritualidade na qual tudo é culpa de Deus ou do diabo, mas sabe que muito do que acontece de ruim, as mazelas impostas às pessoas, são resultantes de processos humanos de perversão e maldade. Não há ilusões, sabe-se que a maldade humana campeia.

Uma espiritualidade que tenta vencer o mal não com campanhas de sete semanas disso ou daquilo, mas que tenta vencê-lo com ações concretas do bem, porque só se vence o mal com o bem! O bem praticado, o bem concretizado.

Mas isso é só para quem quer ver, não para quem quer permanecer na cegueira. Requer responsabilidade, disposição. Os irresponsáveis, os preguiçosos, quererão que os levem, que os conduzam, assim nunca precisarão se responsabilizar pelos seus atos e pela própria vida, nem se sentirão responsáveis pelas transformações necessárias no mundo ao redor.

Márcio Rosa da Silva

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Algumas palavras sobre mim.

Professor de Direito na UFRR - Universidade Federal de Roraima.
Promotor de Justiça no MPRR - Ministério Público de Roraima.
Cristão que se pretende progressista.
Casado com a Clarissa, luz dos meus dias.
Um aprendiz.

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