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Menina chorando - Gaza - Crédito AFP

Menina chorando – Gaza – Crédito AFP

Não sou especialista em Oriente Médio, nem em guerras, nem em geopolítica. Mas sou humano. E o que vejo são centenas de seres humanos sendo assassinados desde o início da operação Margem Protetora, do Estado de Israel, contra a população de Gaza, que se espreme numa minúscula faixa de terra. Entre as vítimas, muitas crianças, velhos e mulheres grávidas. E não precisa ser especialista para saber que isso é absolutamente condenável. Basta ter um mínimo de bom senso para afirmar que bombardear uma escola da ONU e matar dezenas de crianças é um crime de guerra, como até os Estados Unidos, parceiro incondicional de Israel, reconheceu.

Para mim, o que está havendo é um massacre. As pessoas de Gaza são avisadas para deixarem suas casas porque serão bombardeadas. Mas para onde irão? As fronteiras com Israel e com Egito estão fechadas e sequer para o mar podem fugir, porque também está fechado pelas forças armadas de Israel. É um povo que precisa se refugiar e não tem onde!

Não há dúvida de que as forças são incomparáveis. Israel tem um poderio bélico gigante e um serviço de inteligência avançadíssimo. Por isso mesmo, se quisesse tão-só destruir os túneis cavados pelo Hamas que adentram território israelense, poderiam fazê-lo sem matar um civil sequer. Mas não é só isso que estamos vendo. Casas, escolas, mesquitas, central elétrica, hospitais, nada escapa aos bombardeios. Se o alvo é o Hamas, o Estado de Israel teria toda condição de capturar os membros dessa organização, submetê-los a julgamento e condená-los, se fosse o caso.

Não há direito de defesa que justifique a morte de crianças e civis inocentes. Sou contra qualquer tipo de terrorismo, do Hamas, da Al-Qaeda ou de qualquer outro organismo. Mas também sou contra a política de guerra de Israel, que impõe o terror e o horror a gente que não tem pra onde ir e se vê em meio a um massacre.

Além do horror da guerra, algo que me choca é a frieza com que alguns reagem ao que está acontecendo. Os mais cínicos dizem que não há com que se preocupar porque tudo isso “é o cumprimento das profecias bíblicas”. Outros chegam a dizer que é necessário até se alegrar porque é “a palavra de Deus se cumprindo”. A que ponto chega a insensibilidade das pessoas! Crianças estão morrendo! Se um deus está no controle disso e determinou a queda de cada bomba sobre as cabeças daquelas crianças, ele não é Deus, mas um demônio. Na verdade Deus não tem nada com isso, é a maldade humana mesmo. Que religião é essa que está produzindo gente tão insensível?

Se é pra ter um lado, fico do lado dos oprimidos, dos que sofrem, dos que são estrangeiros na própria terra. O judeu Jesus Cristo, a quem tento seguir, disse certa vez, que no juízo final dirá a alguns: “fui estrangeiro e vocês me acolheram”. Ao ser perguntado quando ele tinha sido estrangeiro, respondeu que quando fizeram isso a qualquer pessoa, fizeram a ele. Jesus tem lado nessa história, e é o lado de homens, mulheres, crianças e idosos, que estão sendo tratados como estrangeiros indesejados na própria terra. A face deles é a face de Jesus entre nós. Ao ficar ao lado dos palestinos que sofrem em Gaza estou em boa companhia e do lado da vida, não da morte, do lado paz e não da guerra. Que haja paz em toda parte e que esse banho de sangue cesse!

Márcio Rosa da Silva

Afonso Rosa

Afonso Rosa

Republico, abaixo, texto que escrevi há alguns anos, em homenagem a meu irmão, Afonso.

Hoje é 09 de julho, dia do aniversário de Boa Vista. Entretanto, quero pedir licença dos leitores para falar de outro assunto. 09 de julho também é o dia da Revolução Constitucionalista de 32, feriado no Estado de São Paulo, onde morei por um bom tempo e onde viveu o herói do qual quero falar. A Revolução Constitucionalista foi um movimento cheio de heroísmos, com destaque para os quatro jovens estudantes de Direito do Largo de São Francisco, que morreram no dia 23 de maio, já nos primeiros lances da revolução. Os paulistas pegaram em armas e foram à luta. Foram vencidos pelo poder central, mas o objetivo foi alcançado e a Assembléia Constituinte foi convocada, o que resultou na Constituição de 1934.

Pois bem, no dia 09 de julho de 1998, num dia chuvoso e triste, na cidade de São Paulo, palco daquela revolução, tombava um outro jovem herói, que como aqueles revolucionários de outrora, também havia lutado bravamente. Seu inimigo, entretanto, era outro: um câncer. Estou me referindo a Afonso Rosa, meu irmão caçula, que, com 16 anos de idade, teve um diagnóstico de câncer. Por dois anos lutou, e todos nós ao seu redor também nos entrincheiramos e lutamos, sem desfalecer. Várias foram as batalhas: cirurgia, radio, quimio, novas cirurgias. Em todas elas, aquele jovenzinho, ainda adolescente, agigantava-se. Escondia a própria dor para não nos deixar preocupados, mostrava-se um forte, encarnando o sábio conselho bíblico de que se “te mostrares fraco no dia da angústia, a tua força será pequena”.

Muitas pessoas se convertem ao evangelho em meio a uma situação de dor ou enfermidade. Meu irmão não, ele já servia ao Senhor antes da doença. Tenho orgulho do dia em que ele me disse que eu era o seu “pai na fé”. Durante os dois anos, em que sofreu todas as conseqüências da enfermidade e de seu tratamento, sua fé amadureceu. Certo dia um amigo nosso disse ao Afonso que todos estavam orando por sua cura, mas perguntou como seria se não houvesse cura. A resposta do meu irmão enche meus olhos de lágrimas e meu coração de orgulho: “Para mim basta a Graça de Deus, não vou perder a fé em Deus”. Dá para imaginar essa declaração saindo dos lábios de um menino de 17 de anos de idade? Meu irmão herói disse isso, reproduzindo semelhante declaração do apóstolo Paulo.

Realmente a cura não veio, mas meu irmão, qual os heróis revolucionários de 32, permaneceu altivo, firme, mesmo resignado não entregou os pontos, lutou até o último momento. Fazia dois meses que eu morava em Roraima, quando fui chamado para ir urgente a São Paulo porque a situação se agravara. Quando lá cheguei, dia 07 de julho de 1998, ele estava com a voz rouca e respirava com dificuldade, tudo causado por uma violenta e fulminante metástase. Quando ele me viu, perguntou: “Por que você veio? Estou só com uma pneumonia”. Claro que ele sabia de tudo o que ocorria, mas tentava inutilmente poupar-me.

Na manhã do dia 09 de julho ele já não falava mais. Com dificuldade gesticulou manifestando o desejo de ouvir um texto bíblico. Li o seguinte texto: “Nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”.

Algumas horas depois, no cair da tarde daquele 09 de julho frio, chuvoso e triste, tombava um herói, sucumbia a um inimigo contra o qual lutara com todas as forças. Mas desse herói pode-se dizer: combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé. Curta carreira, é verdade, mas heróica e exemplar. Meu maior e mais próximo exemplo de fé é o meu querido irmão Afonso Rosa. Mencionando uma expressão que li escrita por Villy Fomin, hoje meu irmão vê face a face o que contemplo apenas em parte.

Dia 09 de julho, dia de um herói.

Márcio Rosa da Silva

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Algumas palavras sobre mim.

Professor de Direito na UFRR - Universidade Federal de Roraima.
Promotor de Justiça no MPRR - Ministério Público de Roraima.
Cristão que se pretende progressista.
Casado com a Clarissa, luz dos meus dias.
Um aprendiz.

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