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Marcel Duchamp - Sad Young Man in a Train

Faz algum tempo, atendi um adolescente no meu trabalho. Vou chamá-lo pelo nome fictício de João. Ele estava ali porque tinha se envolvido com violência e criminalidade. Perguntei-lhe sobre sua vida, sua família, seus vícios e seu envolvimento com o crime.

Descobri que João jamais conheceu seu pai, sua mãe sustenta a casa trabalhando o dia inteiro, ela sai de casa um pouco antes de o dia amanhecer e volta na boca da noite. Com 16 anos, ele é o mais velho de cinco irmãos. Mesmo com essa idade, ainda cursa a 5ª série do ensino fundamental. Usa drogas desde os 12 anos, quando colegas da rua lhe ofereceram maconha de graça. Claro que o fornecimento gratuito durou pouco e logo ele teve que “dar um jeito” de conseguir o produto. Relatou que já foi preso umas cinco vezes. Quando lhe perguntei se ele sabia qual seria seu futuro se continuasse naquela vida, ele respondeu, resignado, que seria a penitenciária ou a morte.

Entretanto, o que me deixou mais chocado foi o que ele me respondeu quando lhe perguntei qual era o seu sonho, o que ele esperava da vida, quais eram suas aspirações. Ele me respondeu friamente: “Não tenho sonho nenhum, não senhor”. Eu achei que ele não tinha entendido a pergunta e insisti: “O que você espera da vida, qual é o seu sonho?”. Ele baixou o olhar, mirou no nada, expirou murchando os ombros e repetiu: “Não tenho sonho nenhum, não espero nada”. Fiquei perplexo. Aquela resposta foi como um soco no meu estômago. E o que é pior, não percebi, na resposta de João, nenhuma revolta. O que vi foi desalento, desencanto com a vida.

João, sem horizonte algum, não tem nada a perder e, sem nada a perder, pra ele tanto faz envolver-se com o crime, com as drogas ou arriscar a própria vida.

Como todo adolescente acima de 12 anos que pratica alguma conduta descrita como crime, ele foi responsabilizado pelo seu ato infracional e privado da liberdade numa instituição específica para adolescentes. Mas fico pensando que tipo de futuro terá João, uma alma desprovida de sonhos. Fico pensando sobre quem teria roubado os sonhos de João e concluo que todos nós somos os responsáveis. Quem tirou os sonhos de João foi uma conjuntura que envolve uma distribuição de renda injusta, falta de estrutura familiar, irresponsabilidade paterna, falta de educação na idade certa e de forma contínua, falta de perspectivas profissionais, e, principalmente, acesso fácil a drogas e álcool já na infância além de uma hipocrisia social que se nega a resolver tais problemas, preferindo jogá-los para debaixo do tapete.

Não tenho as soluções exatas para a vida de João, só sei que, sem antes garantir efetivamente todos os direitos fundamentais a ele, resgatar-lhe a dignidade, dar-lhe horizontes e devolver-lhe a capacidade de sonhar, de nada adiantará jogá-lo numa penitenciária como as que conhecemos no Brasil. Isso seria enterrar de vez a possibilidade de resgate desse jovem.

Além desse jovem, quantos milhares de Joões, Josés, Raimundos, Antônios e Marias estão também na mesma situação? Para punir o Estado e a sociedade são implacáveis e rigorosos, mas para garantir os direitos mais elementares são omissos.

Esse caso é uma das muitas razões pelas quais sou contra a redução da maioridade penal.

Márcio Rosa da Silva

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Aquarela - Toquinho

Aquarela – Toquinho

Admiro como os poetas veem a vida. Na verdade os invejo. Eles conseguem transformar as mais duras inquietações, os mais difíceis dramas, as mais inafastáveis dúvidas, em beleza. Com sensibilidade de quem tem alma de artista e talento para usar as palavras, celebram a vida poetizando sobre amor, ódio, coragem, medo, dúvidas, lágrimas, risos. Alguns ainda conseguem colocar música na poesia e, com isso, tocam o coração de quem se rende à beleza.

Aconteceu comigo. Estava ouvindo o rádio – sim o rádio, nem a TV, nem a internet, conseguiram acabar com ele, como erroneamente se supunha – e ouvi “Aquarela” de Toquinho e Vinícius. Essa é uma daquelas canções que falam das questões mais profundas da vida humana, mas de forma leve, poética, lúdica, sem ser piegas, tampouco rasa.

Ao brincar com papel, tinta e pincel, a canção fala das múltiplas possibilidades diante da imprevisibilidade da vida. Convida à imaginação, a enxergar beleza onde há algo simples, trivial. Chama ao encantamento com o que se tem ao redor.

Há entretanto, uma parte da música em que o tom fica um pouco mais sério e a essência da poesia é revelada. É o momento em que o menino está diante de um muro, que na verdade é o futuro e a incerteza contida nele.

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.”

Vamos caminhando pela vida e o tempo vai nos engolindo. O futuro está diante de nós e vai se tornando presente a todo instante. Pretensiosamente tentamos pilotar esse futuro, guiar a vida pelas estradas que queremos, mas nem sempre conseguimos isso. A vida vai nos levando por caminhos outros. O futuro chega sem avisar, sem piedade, sem arrodeios. Sem pedir licença o tempo muda tudo. Daí fica o convite: rir ou chorar.

Diante da imprevisibilidade da vida, do futuro, de nada serve ter medo. Ele só paralisa. Cabe ter a disposição de prosseguir, desafiados a olhar a vida com mais encantamento e coragem. “Não nos cabe conhecer ou ver o que virá”, mas quando vir, a atitude pode ser de entrega ou enfrentamento. O fim dessa estrada “ninguém sabe bem ao certo onde vai dar”, mas antes que essa aquarela se torne descolorida, podemos fazer dela uma “linda passarela”.

O fim chegará, tudo vai perder a cor, mas se a passarela foi bonita, terá valido a pena. Fazer dessa estrada, dessa estada nesse mundão de Deus, um caminho bonito, colocando poesia, bondade, gentileza e amor por onde passar, faz toda a diferença.

Hoje, ouvir o velho rádio me fez ganhar o dia! Se o convite é para rir ou chorar, quero poder chorar e lamentar sempre que necessário, mas quero rir ainda mais, porque sei que há muito mais motivos para rir do que para chorar.


Márcio Rosa da Silva

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Algumas palavras sobre mim.

Professor de Direito na UFRR - Universidade Federal de Roraima.
Promotor de Justiça no MPRR - Ministério Público de Roraima.
Cristão que se pretende progressista.
Casado com a Clarissa, luz dos meus dias.
Um aprendiz.

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