mão moeda

Todos concordam: a corrupção no Brasil é endêmica. Bilhões de reais vão para o ralo das falcatruas, das obras superfaturadas, dos desvios. Muitos têm as mãos sujas de sangue porque recursos que deveriam ir para saúde, merenda escolar e segurança, por exemplo, simplesmente não chegam, ficam pelo meio do caminho e financiam o enriquecimento ilícito de pessoas sem escrúpulos. Sendo assim, pessoas morrem. E o sangue delas está sobre aqueles que pervertem o sistema e tungam o dinheiro público.

De tanto ver isso, tornamo-nos exímios reclamadores. Apontamos o dedo com tenacidade quando vemos uma notícia a respeito, mesmo que, nas eleições, reelejamos sempre os mesmos. Fala-se que a corrupção não é mais tolerável, haja vista o nível a que se chegou. Quando alguns finalmente são encarcerados, há uma histeria coletiva, uma catarse, e, quais bárbaros, queremos ver sangue, cadeira elétrica, empalamento, vingança atroz, afinal, diz-se, roubaram nosso dinheiro.

O curioso é que o corrupto é sempre o outro. É como no racismo. Mais de 90% da população diz que há racismo no Brasil, mas ninguém admite ser racista. É sempre o outro. Apontamos os outros como corruptos, os grandes, os políticos, os gestores, mas nunca ninguém se reconhece como tal. Quando se sabe de alguém que notoriamente lança mão de dinheiros públicos, já ouvi, e não foram poucas vezes, a seguinte reação: “ah, seu eu estivesse lá, faria o mesmo”. Mas, para todos os efeitos a corrupção só acontece nos mais elevados níveis, nunca na base.

Não é bem assim. É necessário reconhecer o problema, se queremos expurgá-lo. A corrupção acontece também na base da população e se reflete, multiplicada exponencialmente, em outras esferas. A cultura de se dar bem a todo custo, ainda que em prejuízo alheio, alimenta essa endemia. Exemplos triviais não faltam: furar filas, estacionar em local destinado a pessoas com deficiência, pedir pro guarda dar um “jeitinho” e não aplicar multa, não devolver o troco que recebeu a mais na padaria, deixar o comerciante de emitir nota fiscal para sonegar o imposto devido, pedir recibo de uma despesa não realizada e requerer ressarcimento da firma e por aí vai. Além, é claro, de uma chaga terrível que é a venda do voto em troca de dinheiro ou outros favores que nada têm a ver com programas de governo, que é o que deveria ser exigido de candidatos a cargos públicos. Que moral tem quem vendeu o voto para exigir lisura dos políticos que elegeu?

Enquanto a população não se envergonhar desses pequenos atos de corrupção, continuaremos passando vergonha por termos os mais altos gestores pilhados em atos de corrupção. Não pode haver corrupção nem no pouco nem no muito. Quem deixa de devolver o troco que sabidamente recebeu a mais é tão corrupto quanto quem embolsa milhões, só muda a proporção das consequências. Quem é fiel no pouco é fiel no muito, mas quem é corrupto no varejo, certamente o será no atacado.

 

Márcio Rosa da Silva

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