Praticamente todas as nossas relações são baseadas em poder. O Estado, com sua pesada estrutura de poder sobre os cidadãos, as relações de trabalho – sempre tem um chefe,  financeiras – quem tem mais dinheiro tem mais poder, e até familiares, em que os pais mandam nos filhos – pelo menos teoricamente.

Até bem pouco tempo o marido mandava na mulher. A família era totalmente baseada numa relação de poder. Não se podia questionar e, por isso mesmo, “funcionava”. Quando se descobre que as relações entre marido e mulher devem ser baseadas no amor e não no poder, as coisas ficam confusas, porque muda-se a base de toda a estrutura. Até hoje alguns querem impor a funcionalidade do casamento pela força, e, claro, isso não dá certo. Ou é por amor, ou não há casamento. Não pode ser uma relação de poder.

Todos querem algum poder, ainda que mínimo. Nem que seja aquele poderzinho do burocrata que está atrás do balcão e quer mostrar autoridade perante o cidadão que o procura. Ou aquele que é pisado por todos no trabalho e quando chega em casa tiraniza mulher e filhos. É a síndrome do pequeno poder.

Na imagem que as pessoas fazem de Deus também prevalece a lógica da imposição pelo poder. Nossa cultura judaico-cristã-ocidental impôs uma ideia de Deus como sendo um homem forte, sentado sobre um trono, como um rei medieval, exigindo ser bajulado, vingativo e controlador ferrenho. E onipotente, claro. Pede-se que Deus proveja tudo, livre dos percalços da vida e vingue os inimigos, de preferência eliminando-os, afinal, Ele tem todo poder.

Mas quem é a imagem de Deus? Cristo, homem. Um rapaz que viveu na Palestina há uns dois mil anos. Por vezes riu, por vezes chorou. Festou muito, inclusive não deixando o vinho acabar num casamento, mas também chorou por amigos que morreram. Virou as mesas de cambistas do templo e tinha sangue nos olhos ao condenar exploradores da fé alheia, desfazendo a ideia de um Jesus cândido e impassível. Também extremamente amoroso e acolhedor, tinha bom trato com crianças e pessoas marginalizadas.

Deus que se fez homem mortal. Tendo todo o poder, abriu mão. Fez-se um de nós. Por isso mesmo, é risível esse pessoal que, porque tem um crachazinho qualquer, já vem com o bordão “você sabe com quem está falando”, porque julga ser alguma coisa, quando Cristo sendo Deus, repito, sendo o maioral de toda a eternidade, causa de todas as coisas, início e fim de tudo, não achou que isso era algo a que devia se apegar. Ele não fez conta disso e esvaziou-se assumindo nossa humanidade em tudo, inclusive na morte, e na humilhante morte de cruz.

Jesus muda as coisas e propõe outro caminho, que nossas relações com Deus e com as pessoas deixem de ser baseados no poder e sejam, sempre, baseadas no amor.

Mas, no fundo, queríamos um Cristo poderoso que vingasse nossos inimigos e se impusesse pela força. Seria tudo muito mais prático, isso resolveria logo tudo, acabaria com toda maldade, e todos o respeitariam. Mas o Cristo dos Evangelhos não é assim. A proposta dele é outra, o amor em lugar da força.  E ele é a exata expressão do Pai. Deus é igualzinho a Jesus. Um Deus que se fragiliza, que não se impõe, mas que se aproxima de nós na nossa humanidade e nos convida a seguir seu exemplo.

Mas quem está disposto?

Márcio Rosa da Silva

Anúncios