Todos temos a capacidade inata de fazermos o bem e o mal. É da nossa natureza fazer coisas magníficas e coisas terríveis. Provocar alegria e felicidade nos outros e também dor e tristeza. Podemos promover a vida ou a morte. Nossas mãos podem produzir o bem ou o mal. Isso é humano.

O ser humano é o que há de melhor no mundo, mas também é o que há de pior. E quando fazemos o mal, o fazemos porque decidimos isso. Não há uma força espiritual maligna externa que incorpora em nós e, então, fazemos o mal. Fosse assim não teríamos responsabilidade alguma sobre o mal que praticamos. Assim também quando fazemos o bem, isso também é uma decisão.

O diabo ou satanás geralmente é imaginado como um capeta, um ser vermelho, com chifres, rabo, um tridente e fedendo a enxofre. Mas isso é folclore que é reforçado pelas supostas demonstrações de possessão demoníaca, amplamente relatadas pelas religiões e até pelo cinema.

Ora, momentos antes de efetivamente trair Jesus, Judas ficou possesso porque, segundo relato de Lucas, “Satanás entrou nele”. E como ficou Judas? Babando, com voz gutural, gritando igual a um louco? Não! Ele ficou com voz mansa, falando baixinho e conspirando com os sacerdotes, sim, os homens donos da religião, dentro do templo, contra Jesus. Mas estava possesso.

Satanás e a personificação do mal. Não é um antagonista de Deus. Não é um deus que rivaliza com Deus numa eterna batalha cósmica entre deuses. É a representação do mal que rivaliza com Deus no nosso coração. Mas quem vai definir o ganhador somos nós. Porque Deus não se impõe, mas propõe caminhos, que poderão, ou não, ser aceitos.

As possibilidades de praticar o mal estão sempre ao alcance. Judas não foi uma vítima, ele desejou o mal. E ninguém vira um Judas Iscariotes da noite pro dia. Isso vai acontecendo aos poucos, você vai deixando o mal entrar com atos isolados. Vai cometendo pequenos atos de crueldade, de maldade, de violência. Pequenos atos de egoísmo, de avareza. Pequenos atos de insensibilidade, de indiferença. Quando perceber já está possesso pelo mal.

Judas não teve um insight e foi trair Jesus. Ele, certamente, já vinha pensando nisso. Esses pensamentos já vinham rondando-o. O que ele fez foi deixar se apoderar pelo mal, que transbordou na efetiva prática da maldade.

E ainda sobre a ideia folclórica de satanás, ele sempre é ligado a ambientes marginais, prostíbulos, bocas de fumo ou entre bandidos declarados, etc. Mas Judas, uma vez possesso, não vai a nenhum desses lugares, mas para o templo, um lugar supostamente “santo”. Onde há pessoas, ali há a possibilidade do bem e do mal. Onde quer que estejam. Quer estejam num prostíbulo ou numa igreja, em ambos os ambientes há possibilidade de praticar o bem e o mal.

É preciso vigiar para que o mal não se apodere de nós. Para que o mal não se aninhe em nosso coração. Para que não sejamos dominados por ele.

Em vez de ir praticando pequenas maldades, praticar pequenas bondades, pequenos atos de gentileza, pequenas demonstrações de amor ao próximo, em especial aos mais próximos, sua família e amigos.

É assim que o mal vai sendo exorcizado, é assim que o diabo será resistido, mesmo estando sempre ao redor, e o bem poderá prevalecer.

Márcio Rosa da Silva

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