Os caras vinham com umas roupas muito caras, jóias penduradas pelo corpo, robustos e com bochechas rosadas, rindo alto. Um deles contou da última grande compra de camelos da melhor qualidade que tinha feito e o outro da última viagem para as ilhas gregas, tinha ainda um terceiro que se gabava de ter comprado por uma fábula a cidadania romana. Eram espalhafatosos, de tantos adereços, o andar deles já era barulhento. Pararam em frente do gazofilácio e derramaram ali uma polpuda quantidade de moedas de ouro sob o olhar risonho do sacerdote, que os convidara para tomar um vinhozinho com o sumo-sacerdote, afinal eram homens piedosos e que contribuíam muito para o templo e para a “obra de Deus”.

A mulher veio com uma roupa bem simples, monocromática, mas tinha um ar sereno e digno. Seu rosto, única parte do corpo exposta, tinha pele sulcada pelo sofrimento e queimada pelo sol inclemente da palestina. Não era velha, mas as marcas no rosto não negavam sua história dor e de trabalho duro. Era viúva. Mesmo assim não tinha aquele semblante de quem se faz de vítima do universo, não parecia uma coitada, guardava dignidade em seu porte. Ela chegou na caixa de ofertas e de um pequeno embornal tirou duas moedas e colocou lá. Baixou a cabeça fez uma rápida oração de gratidão a Deus e dali voltou pra sua rotina, passando despercebida pelos sacerdotes que oficiavam no templo. Eles estavam ocupados dando gargalhadas e tomando vinho com os espalhafatosos endinheirados.

Mas por ali andava também um sábio mestre, um rabi, chamado Jesus, junto com alguns discípulos. Ele viu as duas cenas e afirmou categoricamente: a mulher ofertou mais do que todos. Os primeiros deram daquilo que lhes sobrava, a mulher, de sua pobreza, deu tudo o que tinha. As duas pequenas moedas tinham muito maior valor do que as dezenas de moedas de ouro dadas pelos ricos. No mercado corrente, estas valiam muito mais, mas quanto ao valor do gesto, aquelas eram bem mais preciosas.

Ele queria ensinar que há muita diferença entre preço e valor. Mais ainda, que as pessoas não valem o dinheiro que têm, que ninguém deve ser precificado ou apreciado pelos bens que possui. Quem assim o faz, na verdade não possui os bens, mas é possuído por eles. Infelizmente as coisas são as mesmas desde a época de Jesus e não há novo debaixo do céu. As pessoas continuam sendo precificadas e o que há de maior valor continua sendo desprezado.

A proposta de Jesus é radical. O gesto vale mais que o dinheiro. Realmente, como diz o famoso comercial de cartão de crédito – que ironia – há coisas que não têm preço. Muitas se compram com dinheiro, mas há uma infinidade de outras que, de tão caras, só se conseguem de graça. Um abraço sincero, uma lágrima solidária, uma pequena ajuda num momento de necessidade, o sorriso de um filho, um beijo apaixonado. Coisas que tem muito valor, mas que não têm preço.

A mulher era a mais pobre e a que mais ofertou naquele dia. Os ricos deram muito pouco, quase nada. Lógica invertida essa do Reino de Deus. Acho que já é hora de subvertermos também a lógica predominante. Dar menos valor ao dinheiro e muito, muito mais valor ao que realmente importa.

 

Márcio Rosa da Silva

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