A ignorância é uma terrível forma de cegueira. É libertador conhecer e, através do conhecimento, enxergar. Imagine uma pessoa analfabeta, como ela enxerga o mundo? Para ela, olhar um livro é sentir-se um pouco cega, porque olha mas não enxerga nada a não ser um código indecifrável. Uma vez alfabetizada, ela passa a “enxergar”, era cega e agora vê. Aquele código já não é mais indecifrável. Essa pessoa veio das trevas para a luz.

O velho ditado é uma verdade, o pior cego é o que não quer ver. É preciso querer enxergar. Romper com as correntes da ignorância a assumir a liberdade do conhecimento, arcando com as responsabilidades disso. O personagem de Matrix que prefere continuar no mundo virtual, portanto irreal, sintetiza bem o medo que muitos têm do conhecimento, quando diz: “A ignorância é uma benção”.

A ignorância é confortável porque se você desconhece, alguém vai sempre dizer as coisas pra você, sempre haverá alguém que vai decidir o caminho que você deve andar. Você nunca precisará tomar decisões.

Veja como isso é contrário à proposta de Jesus, que desejou que as pessoas fossem autônomas, adultas, maduras, livres: “Vocês conhecerão a verdade e a verdade os libertará”.

A ilusão também é confortável. Há muita gente iludida que quer permanecer assim. Isso acontece demais no ambiente religioso. É sabido que, por exemplo, a teologia da prosperidade, aquela que promete mundos e fundos a quem cumprir o que os líderes mandam, é uma furada. Mas prefere-se continuar acreditando.

É claro que não há uma redoma protegendo o cristão dos percalços da vida, pois o tempo e o acaso atingem a todos, mas prefere-se continuar crendo na ilusão de uma vida redondinha, toda certinha, sem nenhum imprevisto, afinal, “Deus está no controle de tudo”. Uma ilusão que não resiste à realidade imposta pela vida.

Mas por que as pessoas se recusam a enxergar a realidade? Porque o processo de desilusão é doloroso. O Nobel de Literatura José Saramago, no célebre “Um ensaio sobre a cegueira”, coloca na boca de um personagem: “Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego”.

É preciso querer enxergar. Quem quer enxergar, saberá, e quererá, enxergar as feiúras do mundo ao redor, mas também terá a capacidade de ver também suas belezas.

Quem quiser continuar na ilusão, na mentira de uma espiritualidade que se resume à vida no templo, na igreja, nessa redoma religiosa, ok. Mas a proposta de Jesus é de uma espiritualidade viva, conectada com a vida. Uma espiritualidade que não fica orando para que a fome dos miseráveis seja saciada, mas que faz algo para que isso aconteça. Uma espiritualidade que não fica orando para Deus abençoar os analfabetos, mas que vai até eles e os alfabetiza.

Quem não se faz cego, rejeita uma espiritualidade na qual tudo é culpa de Deus ou do diabo, mas sabe que muito do que acontece de ruim, as mazelas impostas às pessoas, são resultantes de processos humanos de perversão e maldade. Não há ilusões, sabe-se que a maldade humana campeia.

Uma espiritualidade que tenta vencer o mal não com campanhas de sete semanas disso ou daquilo, mas que tenta vencê-lo com ações concretas do bem, porque só se vence o mal com o bem! O bem praticado, o bem concretizado.

Mas isso é só para quem quer ver, não para quem quer permanecer na cegueira. Requer responsabilidade, disposição. Os irresponsáveis, os preguiçosos, quererão que os levem, que os conduzam, assim nunca precisarão se responsabilizar pelos seus atos e pela própria vida, nem se sentirão responsáveis pelas transformações necessárias no mundo ao redor.

Márcio Rosa da Silva

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