Eu ainda não cheguei àquela idade em que há certo desconforto com o próprio aniversário. Com o passar do tempo, alguns deixam de gostar do aniversário, porque ele será a lembrança de que há menos areia na parte de cima da ampulheta que na parte de baixo. Sei que esse tempo chegará pra mim, mas ainda gosto muito do meu aniversário. Sou encantado com a vida, gosto de celebrar cada dia, tento saborear cada momento.

Quando chega meu dia, fico sempre muito agradecido. A vida se renovou sobre mim, tenho saúde, tenho a quem amar e tenho quem me ame, sou um privilegiado. Tenho que ser grato.

É claro que também sempre reflito sobre os cálices amargos que a vida me fez beber. Intragáveis, pensei que morreria ao sorvê-los. A dor mais profunda de todas, despedir-me para sempre de meu irmão Afonso, ainda mostra-se presente com o simples fato de mencioná-la. Com isso, e com todas as outras perdas, aprendi que a vida também é feita de despedidas. Fazemos isso o tempo todo. O aniversário é um dia para se despedir do tempo que passou, olhar para trás e dar um aceno com olhar sereno. Depois, dar meia volta, olhar para frente e deixar-se surpreender com o que está por vir.

Nesse dia meu coração fica pleno de esperança. E espero muito, talvez isso seja um defeito. Quanto maiores as expectativas, maiores as chances de frustração. Mas não canso de esperar. Após dar adeus ao passado e me virar para o futuro, sorrio. As infinitas possibilidades que estão à minha frente, me encantam. Sei que são incertas, já aprendi isso também, mas essa incertidumbre torna a aventura toda ainda mais excitante. A vida totalmente previsível é impossível e, caso fosse possível, seria uma chatice, um tédio.

Exatamente porque presumo, apenas presumo, que para mim há mais areia na parte de cima da ampulheta, quero aproveitar de maneira intensa cada oportunidade. Quero andar por lugares ainda por mim desconhecidos, há tantas viagens ainda por fazer, trabalhar bastante para deixar um legado e ser relevante, estudar muito, porque há tanto por conhecer, abraçar meus pais como se fosse aquele mesmo menino que corria descalço pelas ruas de terra vermelha do paraná, conversar com amigos de maneira leve e despretensiosa mas mantê-los como joias preciosas, como um tesouro, beijar minha amada de maneira apaixonada como nos primeiros dias de namoro e afagar e amar os filhos que com ela terei como o maior presente que Deus a vida poderiam dar. Isso tudo é esperança, da qual, hoje, meu coração está transbordando.

Sem esperança não se vive, no máximo se sobrevive, talvez nem isso. Eu me recuso a existir assim. Quero viver mesmo. Por isso celebro o dia do meu aniversário. Que todos façamos assim. Prossigamos! Há muita vida à nossa espera.

Márcio Rosa da Silva

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