Uma vez, quando questionado sobre se muitos seriam salvos, Jesus respondeu: “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram”.

Nos guetos igrejeiros, a expressão “porta larga” representa igrejas que são “permissivas”, que não impõem um regramento pesado para o comportamento pessoal de seus membros. Já a “porta estreita” representaria aqueles movimentos que são rígidos na imposição de comportamentos, em especial no que diz respeito à aparência, vestuário e hábitos cotidianos. Essa é uma interpretação estreita do texto, que o deixa muito aquém do seu propósito.

Ora, parece evidente que o texto diz que a porta estreita é mais difícil, é mais desafiadora, requer mais disposição, mais fibra, mais força de vontade e conduz à vida. Enquanto que a porta larga e o caminho espaçoso é para os preguiçosos, os pusilânimes, aqueles que desistem fácil e preferem a coisa já pronta, o caminho menos trabalhoso.

Usar esse texto para rotular igrejas é acabar com seu caráter amplo. Ele não foi dito para designar movimentos religiosos, mas para orientar a vida das pessoas. Para dizer dos caminhos a seguir, para dar um norte, um critério quanto aos caminhos a seguir na vida!

Por exemplo: uma pessoa abre uma empresa. Qual é a porta estreita? Fazer tudo direito, pagar todos os impostos, pagar todos os direitos trabalhistas dos empregados, agir dentro da legalidade. Qual a porta larga, mais fácil? Pagar propina para se livrar de burocracia, não dar nota fiscal, sonegar impostos, etc.

A porta estreita é mais difícil, mas leva à vida, a porta larga é mais fácil, mas conduz à perdição.

Abrir mão de um relacionamento na primeira dificuldade ou descartar amigos por bobagens é mais fácil. São portas largas. A porta estreita é daqueles que se empenham em seus relacionamentos, que investem neles, e esse é o caminho que conduz à salvação e não à perdição.

A porta estreita é o caminho de quem decidiu aceitar o desafio de abraçar o estilo de vida proposto por Jesus, abandonar uma religiosidade de aparências, para buscar uma espiritualidade transformadora. Cumprir uma coreografia religiosa, mas ser praticante da maldade, é andar pela porta larga.

A porta estreita é o caminho de uma espiritualidade viva, que transborda das paredes do templo e chega até a vida das pessoas.

O caminho dos covardes, da porta larga, é o de transferir sempre aos outros a responsabilidade pelas próprias decisões. Nessa atmosfera doentia, é sempre o líder ou a instituição que decide o que se deve ou não fazer. Esse é o caminho do preguiçoso existencial, daquele que se acovarda diante da vida e que desenvolve uma espiritualidade infantilizante. A porta estreita é dos que sabem que precisam tomar decisões sobre a própria vida e assumir as consequências.

Viver o evangelho requer disposição, força de vontade. Os pusilânimes, os de vontade fraca, caem fora cedo. Ficam os corajosos. Ou aqueles que mesmo com medo de vez em quando, insistem, persistem, não são seduzidos por uma religiosidade que vende facilidades, que propõe uma vida de barganhas com Deus e com o diabo, uma autêntica porta larga.

Mesmo sem milagres, sem intervenções espetaculares, sem coisas sobrenaturais para contar, os que andam trilham o caminho estreito sabem que a verdadeira espiritualidade é aquela que se revela no cotidiano humano, trivial, simples, porém significativo. É a porta pela qual Jesus entrou, abrindo mão de qualquer intervenção sobrenatural, assumiu nossa humanidade e a levou até às ultimas consequências. Ele é o nosso modelo, nossa inspiração. Sigamo-lo, pois.

 

Márcio Rosa da Silva

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