Acredito que uma das maiores distinções que um professor pode ter é a de ser escolhido para ser paraninfo de uma turma. É, sem dúvida, uma demonstração de gratidão, carinho e respeito.

Venho de um longínquo primeiro semestre, quando ministrei aulas de Introdução ao Estudo do Direito. Orgulho-me de ser o responsável pelas primeiras letras jurídicas dessa turma. Mas, como os senhores devem se lembrar, dizia, já nas primeiras aulas, que o tempo passaria rapidamente. Os cinco anos, que, então, pareciam tanto tempo, se dissipariam num piscar de olhos. Dizia que dali a algum tempo estariam todos preocupados com monografia, formatura, exame de ordem, e que não esquecessem de me convidarem para a festa. Vejam que assim mesmo aconteceu.

O tempo voa, a vida é breve, e aqueles que não aproveitam bem o tempo passam pela vida sem viver. Não é o caso de vocês. Estão aqui, celebrando o bom uso de cinco anos de suas vidas, que, certamente, mudarão muito os muitos anos que virão.

Como o paraninfo é uma espécie de padrinho, sinto-me no direito, ou no dever, ou talvez tenha o poder/dever de dar alguns conselhos a vocês.

Nunca percam de vista que o ideal de justiça, ainda que utópico, deve nortear vossas ações na carreira que vocês escolherem. Não se esqueçam que o Direito é mais do que a letra fria da lei, é também arte. Não esqueçam que Justiça é dar a cada um o que é seu devido. E procurem sempre agir de maneira equitativa.

Não é demais lembrar Rui Barbosa, na célebre “Oração aos Moços”, discurso que fez quando também foi paraninfo de uma turma de Direito do Largo de São Francisco, em 1920, em que ele diz: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”. Em outras palavras, é preciso ser forte com os fortes e brando com os fracos, assim talvez haja alguma justiça.

Não se iludam com o poder, ele é passageiro, efêmero e não torna o seu detentor melhor do que ninguém. Todos nascemos da mesma forma e teremos todos o mesmo destino. Todos somos frágeis e nossa vida não passa de um sopro. Quando tiverem algum poder, lembrem-se disso. E usem o poder que tiverem para o bem das pessoas, para o bem comum. O poder só tem valor quando usado assim, senão vira tirania. Quem acredita que o poder o torna melhor ou superior a alguém é ridículo, pois assumiu uma visão diminuta da vida e a própria vida se encarregará de humilhá-lo. Antecipem-se a isso e sejam humildes.

Sejam humanos, sensíveis às injustiças que se apresentarão a vocês e tentem corrigi-las. Não precisam ter a ilusão de que podem mudar o mundo, mas nas carreiras jurídicas vocês terão oportunidades de mudar o mundo de algumas pessoas. Façam isso. Busquem sempre o que é direito e lutem por justiça, por um mundo mais equânime. Não sejam máquinas de investigar, processar ou julgar, sejam, antes de tudo, humanos. Lembrem-se do genial Charles Chaplin: “Não sois máquinas, homens é que sois”.

Não percam a esperança! Haverá momentos em que vocês serão confrontados com injustiças tais, que vai parecer que não vale a pena ser honesto, probo ou justo. Em que vai parecer que os injustos, desonestos e os que praticam o mal é que triunfarão. Mesmo assim não percam a esperança.

Não esqueçam que se deve fazer o bem, porque é o certo e isso é bom, e não porque se espera alguma recompensa. Façam valer a esperança que muitos vão depositar em vocês para que lhes façam justiça. E prossigam. Quando a esperança morre, morremos também, porque sem ela não temos elã pela vida. Mas se o seu coração tem um pouquinho só de esperança, ele pode conduzir você a grandes feitos.

Portanto, olhem para o futuro com o coração carregado de esperança e cheio de sonhos. Há um futuro bom diante de vocês. Vocês plantaram e hoje estão colhendo e a colheita continuará para sempre. Enfrentem com galhardia os desafios, que não serão poucos, refaçam o caminho a cada revés, e não desistam jamais.

Assim, tenho certeza, serão felizes.

Deus os abençoe e tenham muito sucesso!

Márcio Rosa da Silva

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