(Texto que li, dia 02/12/2012, na Betesda de Boa Vista)

 

Hoje celebramos 11 anos de implantação desta comunidade, desta igreja, aqui em Boa Vista, Roraima. A data é festiva e temos mesmo o que comemorar.

Mas eu, em especial, quero agradecer. Sempre agradecemos a Deus, nessas ocasiões, e assim o faço. Mas o faço agradecendo a vocês, à Igreja Betesda de Roraima.

Nesse ano que está se encerrando, desde o início do ano, vocês me deram suporte, apoio, naquela que foi, até agora, a minha pior crise pessoal.

Durante todo o primeiro semestre fui tomado por uma tristeza profunda. Como todo processo de desilusão é doloroso, comigo não foi diferente. Não conseguia lidar com uma situação até então impensável para mim, tanto que não conseguia falar com ninguém a respeito.

Mas esta comunidade, percebendo que algo não estava bem comigo, respeitou o meu silêncio e acolheu a minha dor.

Muitas vezes subi neste púlpito e preguei para mim mesmo, ministrei ao meu próprio coração. Mas chegaram os momentos que não tive condições de pregar, nem de assumir os compromissos próprios do pastorado.

O barco ameaçou fazer água.

Em vez de abandonarem o barco, senti a mão de amigos ajudando-me a segurar o leme. Em alguns momentos deixaram claro mesmo que eu podia soltar o leme, eles estariam ali pra conduzir, eu poderia ficar tranquilo. Percebi que não estava só. Percebi que não sou o responsável pelo avanço dessa comunidade. Sou apenas mais um, com vocês, a conduzir essa linda igreja.

Nesse processo todo, tive que viver muito daquilo que sempre preguei para os outros. Sempre gostei de dizer que Deus é Deus de recomeços, mas eu mesmo não imaginava que teria que recomeçar. Mas recomecei. Tive que me reinventar. Tinha que prosseguir. Consegui.

O amargo que experimentei não tirou minha capacidade de saborear o doce da vida.

O amor e a vida sorriram para mim, e retomei a vida, ainda mais pleno do que, então, me achava.

E em tudo percebo a paciência, o amor, o cuidado, o respeito, o apoio e a torcida desta igreja. Sou grato, muito grato.

Não sou mais o mesmo e a Betesda não é mais a mesma. Somos melhores agora.

A Betesda continua sendo uma igreja vanguardista, arejada, bonita, que estimula o pensamento e foge de uma religiosidade emburrecedora e hipócrita. Queremos viver a liberdade pregada por Cristo, sorver sua admirável graça, viver seu incondicional amor, com todos os riscos inerentes a tudo isso.

Em toda essa minha crise pessoal, na qual quase nada fiz pela Betesda, a Betesda fez muito. Cito especialmente o ministério de acessibilidade, que é um exemplo de engajamento e espírito voluntário pra todos nós. Não há como esquecer os dias seguidos em que vocês foram para os Arraiais do meio do ano, trabalharam de maneira alucinada e, com o dinheiro arrecadado, fizeram a reforma deste prédio, tornando-o acessível.

Mas todos os outros ministérios permaneceram comprometidos e atuantes.

A Betesda continua sendo uma igreja comprometida com a transformação das realidades perversas e injustas. Nosso centro comunitário, nossa Oficina de Vida, continua alcançando pessoas e sendo benção para muitos. Ontem mesmo fui num campeonato de judô, ver os meninos e meninas do Avança Judô lutarem. São crianças e adolescentes que tem oportunidade de ter uma atividade que, talvez se não fosse essa igreja, com seus voluntários abnegados, não  teriam. O sorriso daquele menino pobre após terminar um combate de judô, para mim, é a Glória de Deus manifesta! O choro da criança que perdeu o combate e é amparada pelos colegas, também é a Glória de Deus manifesta! Eles sabem que são alguém, que tem seu lugar no mundo e que alguém se importa com eles. E isso glorifica a Deus entre os homens!

A flauta tocada por crianças, que em outras circunstâncias, não teriam acesso à musicalização, é manifestação mesma do Reino de Deus entre nós.

Isso é Betesda!

Uma vez me disseram que a Betesda é como o vôo do besouro. O besouro não tem estrutura, aerodinâmica, nem asas adequadas para o vôo, mas, inexplicavelmente voa. Assim a Betesda seria essa igreja que inexplicavelmente prossegue. DISCORDO!

A Betesda está mais para o caimbé. Que no meio do lavrado seco, debaixo do sol causticante e em meio a pedras, permanece verdejante. E mesmo depois de uma queimada, ele fica em cinzas, mas algum tempo depois reverdece. E isso tem explicação. O caimbé se adaptou às intempéries para sobreviver. Assim somos nós, assim é a Betesda.

Forjados nas dificuldades, nas crises, conscientes da humanidade e da fragilidade de seus membros e de seus líderes, prosseguimos. Nos adaptamos, remamos contra a maré, nosso discurso foge das avenidas e se envereda por caminhos mais difíceis, mas que valem a pena.

Sim, somos como o caimbé. O solo pode continuar arenoso e seco, o sol pode continuar a pino, as pedras podem continuar pelo terreno, mas tal qual o caimbé permanece altaneiro no lavrado, permaneceremos tentando ser uma sombra para o cansado, uma esperança para o desiludido e sinalização, ainda que pálida, do Reino de Deus em Boa Vista e em Roraima!

De coração, obrigado!

Márcio Rosa da Silva

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