Falar de significado é fazer um exercício de alteridade. Damos um significado a nós mesmos, mas isso também é feito pelas outras pessoas com relação a nós. O que significo para o outro não depende de mim, mas do outro. Eu posso me achar “o cara”, mas o outro pode me achar um estúpido. Posso ter-me em alta conta, mas o outro pode me achar deplorável. O que eu represento para o outro, depende do outro.

Mas ainda assim, posso dar eu mesmo um significado à minha vida, conforme o modo como a vivo. Como me vejo? Como me porto? Qual a minha visão da vida e do mundo? Isso afetará o significado que eu mesmo dou a minha vida.

O que uma pessoa que sempre pensa em quanto lucrar com as pessoas pensa da vida? Qual o significado que dá a sua própria vida e a dos outros? Olha para o outro sempre como fonte de lucro e usa a todos. Corre o risco de esquecer que lida com pessoas e não com animais ou máquinas. E também corre o risco de ela mesma tornar-se um animal ou uma máquina.

O cara que faz e acontece, produz muito, junta muita riqueza e se vê satisfeito com tudo. Mas se morrer repentinamente, o que deixará além de bens?

É preciso deixar mais que bens. É preciso deixar um rastro de afeto, de cuidado, de carinho, de amor. Se não deixar isso, não terá valido a pena. A vida só será significante se for vivida assim. Deixar um rastro de destruição, ódio, rancor, ingratidão, desprezo, maldade, de desamor, dá significado a vida, claro, mas um significado ruim, negativo, destrutivo.

Se você é alguém que apenas produz, ganha e acumula coisas, você se perdeu, tornou-se uma máquina, se desumanizou. Precisamos produzir, ganhar, acumular, mas não pode ser só isso. Essa não deve ser a razão da nossa vida. A vida é mais do que isso.

A vida só é verdadeira e plena por causa dos afetos, porque amamos e somos amados. A vida faz realmente sentido, quando há alguém, quanto temos alguém.

Imagine aquele dia alucinado, em que você trabalhou numa linha de produção do que quer que seja, ou num escritório qualquer lidando com uma pilha de papéis, produziu, produziu, produziu… Está exausto. Em que momento a vida fará mais sentido pra você? Quando você sai dali e encontra o amigo pra um café; quando dá um beijo na amada ou no amado; quando recebe o abraço paterno; quando é acolhido no colo materno; quando abraça uma criança que celebra sua chegada.

São tais coisas que fazem a vida ter significado, são esses laços de afeto que tornam nossa vida significante. Como diz a música “Fotografia”, de Leoni:

O que vai ficar na fotografia

São os laços invisíveis que havia

As cores, figuras, motivos


O sol passando sobre os amigos


Histórias, bebidas, sorrisos


E afeto em frente ao mar”

Somos seres feitos à imagem e semelhança de Deus e Deus é amor. Quando amamos nos assemelhamos a Deus, que é todo amor. Sem amor não há sentido para vida. Sem amor não há significado relevante para a vida.

Quem ama a vida, o trabalho, a cidade onde mora, quem ama os amigos, seu marido, sua mulher, quem ama seus filhos, seus pais, quem ama viver tem um significado relevante.

Quem ama, não de boca, de palavra apenas, esse é mentiroso, mas quem ama de verdade, esse já percebeu o verdadeiro valor da vida e a verdadeira riqueza da vida. Porque no final das contas “o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia”.

Márcio Rosa da Silva

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