Não há muita dificuldade em amar o próximo, quando o próximo é uma multidão. A multidão não tem rosto, é uma massa. Há quem ame a multidão e odeie os indivíduos, o que é completamente bizarro. É como a ambientalista que ama a floresta, mas detesta a árvore. Não faz sentido.

É como o pastor, padre, pregador, cantor, músico, que ama a igreja cheia para ouvi-lo, mas detesta ter que lidar com cada uma das pessoas, quer apenas plateia. É como o político que ama a multidão a aclamá-lo, mas não suporta o contato com as pessoas após as eleições, evidentemente.

Também não há muita dificuldade em amar o próximo, quando o próximo é alguém das nossas relações, um amigo, alguém com quem se tem  afinidade, alguém que tem nossa minha simpatia. Ser o próximo de quem não precisa de nada ou que trará alguma vantagem é fácil! Aproximar-se de alguém que pode guindar a uma posição social mais elevada é fácil. É assim que fazem os alpinistas sociais, sempre querendo fazer média com quem é mais rico ou mais influente, por puro interesse.

O desafio é ser o próximo de quem não pode dar nada em troca, às vezes nem gratidão. Ser o próximo dos mais improváveis, de quem você jamais pensou em amar, ajudar ou cuidar. Digo amar e cuidar porque o cuidado é a maior expressão de amor. Quem ama realmente cuida.

A parábola do Bom Samaritano, contada por Jesus quando perguntado por um mestre da lei sobre quem seria seu próximo, ensina algo a respeito. Mostra que a lei áurea do Reino de Deus, o amor ao próximo, não pode apenas ser teorizado, mas vivido. Na história, um homem é assaltado e deixado meio-morto à beira do caminho. Um sacerdote e um levita passam por ele, mas se afastam e prosseguem sua viagem. Um samaritano que passava, se compadece do moribundo, cuida dele, e hospeda-o.

Tal episódio ensina que o próximo é aquele se dispõe a ajudar o necessitado. Os caras que deveriam ter parado não o fizeram. O sacerdote e o levita eram pessoas que viviam da religião, de ensinar o povo sobre a lei de Deus. No entanto, passaram ao largo, não quiseram ajudar. Eram os mais prováveis ajudadores, homens supostamente piedosos, mas deviam estar ocupados demais com os afazeres religiosos e não tinham tempo de viver realmente o maior mandamento.

Quem parou pra ajudar foi um samaritano, o mais improvável de todos. Os samaritanos não se davam bem com os judeus e por isso ele não tinha obrigação nenhuma de ajudar. Mas é aí que realmente se vê a misericórdia, a compaixão e o amor que se revela em cuidado, quando não há a obrigação. Ajudar alguém que “não merece” nossa ajuda, nosso cuidado, isso tem muito valor. É necessário se dispor a ajudar mesmo a quem julgamos não merecer ou que não pode retribuir nossa ajuda.

O próximo é também aquele que precisa de ajuda, o caído à beira do caminho que precisa de compaixão e cuidado. E quantos destes há, que encontramos em nosso dia-a-dia, precisando ao menos de uma palavra, um afeto, atenção, suporte, e ignoramos?

Além desses, o próximo é aquele que, mesmo não tendo motivos para amar, ou até tendo motivos para odiar, deve ser amado.

Após ouvir a história, o mestre da lei deve de reconhecer que o próximo era o samaritano. Ele, o mestre, agora vira aluno de quem ele considerava inferior e o reconhece como o “próximo”. Agora o mestre da lei teria que respeitar o samaritano, o que também é uma demonstração de amor. Quando se perde o respeito, também o amor já não existe. Teria que passar por cima das barreiras culturais e étnicas para então amar seu próximo, até então tido por ele como desprezível. Teria que vencer aquela antipatia e aprender a amar, ou no mínimo, respeitar aquele samaritano.

E a ordem de Jesus, no final do diálogo, é clara, “vá você e faça o mesmo”. Obedeçamos.

 

Márcio Rosa da Silva

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