Partir o pão

Generosidade – Partir o pão.

Com a evolução da humanidade, as pessoas foram se tornando mais autônomas, o que é algo muito positivo. Homens e mulheres tornaram-se, em certa medida, donos de suas próprias vidas, tomando decisões, rompendo tradicionalismos sem sentido, não se submetendo a um fatalismo existencial.

Até certo tempo atrás, não se escolhia sequer com quem se casar, a religião era aquela imposta pelo soberano, a profissão era herdada do pai e não havia chance de mudar de classe social durante a vida. Não havia autonomia.

Nesse aspecto o Evangelho é vanguardista, dando autonomia às pessoas, poder de decisão. Jesus enfatiza o querer quando diz: “Quem quiser vir após mim…”. Na parábola do filho pródigo há o máximo de autonomia que se podia dar a alguém. O pai deixa o filho completamente livre pra pegar seus bens e ir embora.

A Reforma Protestante também ajuda nesse processo cultural de autonomização. Agora já não seria somente o clero que teria acesso às Escrituras, mas qualquer pessoa tinha o direito de examiná-las livremente e dar sua própria interpretação. Talvez aí uma das sementes da teoria do direito subjetivo, ou seja, cada sujeito, cada pessoa, pode exigir, reivindicar, seus direitos. Tudo isso culminou nos movimentos que criaram constituições que reconheceram os direitos e garantias individuais.

É sabido, entretanto, que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. A não compreensão da autonomia pode descambar para o individualismo, quando a pessoa se importa apenas com ela mesma, desconsiderando que estamos todos conectados e que nossas decisões não afetam somente a nós, mas a uma rede de pessoas, muitas vezes indeterminável. Esse individualismo é fruto de um dos piores pecados e da total negação da mensagem de Cristo, o egoísmo.

Se há algo que contraria absolutamente a natureza e o caráter de Deus, é o egoísmo. Deus é o oposto disso. Ele é aquele que, sem pensar em si mesmo, esvazia-se e torna-se um com seus filhos, por pensar mais em sua criatura do que em si mesmo.

Mas em vez de celebrarem a autonomia como oportunidade para compartilhamento, ajuda mútua, diminuição da miséria, as pessoas estão se tornando individualistas ao extremo, como se conseguissem existir sozinhas.

Ninguém é uma ilha autossuficiente! O que se faz ou se deixa de fazer diz respeito, sim, a muita gente. Em especial, diz respeito àquelas pessoas que nos amam. Todos estamos conectados.

A vida só é possível em comunidade. Deus é uma comunidade: Pai, Filho e Espírito Santo. Além disso, nos criou para vivermos em comunidade com ele e uns com os outros. E o que fizemos com essa dádiva? Tornamo-nos egoístas.

O mundo produz comida suficiente para todos os seus habitantes, mesmo assim, muitos irão dormir hoje à noite com a barrida doendo de fome. Isso é inaceitável.

O individualismo, o egoísmo, nos tornam mesquinhos. O que pode nos salvar de sermos esses seres abjetos, repugnantes, avarentos e mesquinhos é a generosidade.

Não serão orações que matarão a fome do pobre, mas a generosa disposição de homens e mulheres inconformados com a injustiça e a miséria. Também não se deve esperar que grandes ações globais acabem com o sofrimento das pessoas, mas sim o comprometimento em realizar pequenos gestos de generosidade. São estes gestos, ainda que diminutos, que provocam grandes revoluções na vida de quem os faz e de quem os recebe.

Façamos, pois, assim.

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