Criam-se ditados que, por serem repetidos à exaustão, acabam inculcados na mente das pessoas e interferindo na própria forma como veem a vida. Quem nunca ouviu: “Depois da tempestade, vem a bonança”?. Tem ainda um que é mais próprio do meio cristão, em especial, evangélico: “Com Jesus no barco, tudo vai bem.”

Discordo. Essa é uma visão simplista, supersticiosa, que usa Jesus como talismã. Ora, se o talismã está no barco, ele não afunda, tudo irá bem. Será? Não é bem assim.

Com Jesus no barco, o barco pode afundar. Depois da tempestade pode vir o naufrágio, o que não quer dizer que Deus estivesse ausente. O apóstolo Paulo, no Mar Adriático, quando era levado para seu julgamento em Roma, sofreu um naufrágio, o barco se acabou. E quem é que pode dizer que Jesus não estava com ele?

Tempestade é algo assustador. Gostamos de chuva, aquela chuvinha suave, gostosa, que ajuda a dormir melhor com o barulho dela no telhado. Mas uma tempestade, com ventos muito fortes, muitos relâmpagos, com uma precipitação muito grande, nos deixa logo apreensivos.

A tempestade bem pode ser uma metáfora das situações complicadas e difíceis que temos em nossa vida. Crises de toda ordem, consequências de decisões mal tomadas, tragédias que independem de nossa vontade, enfim, tempestades que podem assolar a vida de qualquer um de nós. O que fazer?

Certa vez, Jesus, junto com os discípulos, estava atravessando o Mar da Galileia, quando o barco em que estavam foi assolado por uma grande tempestade, ventania, fazendo parecer que o barco ia soçobrar. E Jesus dormia. Os discípulos o acordaram: “Mestre, vamos morrer!”. Então Jesus acorda, interrompe a tempestade, acalma o mar e dá uma bronca nos discípulos: “Onde está sua fé? Por que vocês são tão medrosos?”

Quando Jesus pergunta onde está a fé dos discípulos não creio que seja fé para acalmar a tempestade, para intervir na natureza, para dar ordem ao vento e ao mar. A pergunta tem muito mais a ver com a condição que os discípulos deveriam ter para enfrentar aquela tempestade sem ficarem apavorados. Para isso e preciso fé.

Fé para atravessar a tempestade, calma suficiente para fazer as manobras necessárias para o barco não afundar. Se o barco afundasse, presença de espírito suficiente para tentar se salvar a nado. E fé para enfrentar até mesmo a morte.

Veja que ao clamor: “Mestre, vamos morrer”, Jesus responde: “Onde está a sua fé”. Vamos morrer, sim, mas onde está sua fé?

Para qualquer crise é preciso ter fé. Uma fé madura, não um poder mágico que manipula as forças da natureza, mas a que faz ter força o suficiente para atravessar qualquer situação. Fé que gera uma maturidade tal que traz a consciência de que mesmo a morte terá de ser enfrentada, e com serenidade.

Fé que traga a capacidade de continuar sereno e esperançoso, mesmo que não haja um livramento espetacular, que produza maturidade para sorver as tragédias pessoais e jamais deixar de acreditar que o Senhor está conosco  na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, na vida e na morte.

Acho que era essa fé que Jesus estava a sentir falta nos seus discípulos.

Márcio Rosa da Silva

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