Chegou a grande festa brasileira, Carnaval. Aliás, como o povo brasileiro gosta de festas, feriados, dias santos, pontos facultativos. Não precisa muito para que seja decretado um feriado e uma festa. Essa característica de nossa cultura tem muito de positivo. Não levando em conta a questão econômica – vários dias sem expediente é sempre prejuízo – essa capacidade de fazermos festa por tudo é boa, mostra que sabemos escapar, ainda que por pouco tempo, da dureza da vida.

Mas fico pensando nos tristes. Não naqueles que são patologicamente tristes, esses precisam de tratamento sério e especializado, mas naqueles que estão tristes. Há pouco espaço para eles no mundo contemporâneo. Todos têm que ser felizes e alegres o tempo inteiro. Os livros que mais vendem são os que trazem receitas sobre como ser feliz seguindo alguns passos ou como desvendar o segredo para uma vida bem sucedida e coisas do tipo. A publicidade só mostra pessoas felizes. Revistas de celebridades só mostram pessoas radiantes. Nessa época de carnaval, então, todos tem que levantar os dedos indicadores alternadamente e cair na folia.

Até nas igrejas, que já foram espaços em que se podia chorar e derramar sua tristeza, já não há mais espaço para os fracassados, para os frustrados, para os perdedores, para os tristes. Na igreja é necessário sorrir e mostrar que está feliz, porque todos os seus problemas foram, ou serão, resolvidos através da oração do pastor, do padre, do bispo ou do “apóstolo” (desculpem, não consigo escrever isso sem aspas).

Como diz a canção do Frejat “rir é bom, mas rir de tudo é desespero”. Não se pode entregar-se à tristeza, isso viraria uma doença, mas é necessário entrar em contato com ela, elaborá-la, percebê-la de maneira profunda. Assim, talvez, consiga-se perceber que ela faz parte da vida. Assim como a felicidade, ela não é perene. Há momentos tristes e felizes. A vida é assim. Quem aprende isso consegue saborear bem os momentos felizes e digerir os tristes, sabendo que não serão para sempre.

A tristeza nos humaniza porque nos mostra que todos temos nossas dores, nossas dificuldades e nossos períodos de baixa. Também ajuda a compreender melhor a dor do outro. Seremos um ombro melhor para o que sofre se já sofremos também. Acolheremos e respeitaremos melhor a dor do outro se também já doeu em nós.

Isso é algo que me encanta em Cristo. Deus encarnado ficou triste, sentiu angústia, andava com alguns fracassados e ele mesmo, conforme a lógica vigente até os dias de hoje, também fracassou, morreu. É por isso que ele sabe acolher nossa dor, respeitar nossa tristeza e servir de ombro para nossas lamúrias. Em toda sua dor, sempre teve a esperança de que voltaria a sorrir. E voltou. Ressuscitado, procurou seus amigos e com eles celebrou, festejou, novamente.

Digira sua tristeza, mas o amargo dela não lhe tirará a capacidade de sentir o doce dos momentos felizes de novo.

Márcio Rosa da Silva

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