João é um bom cristão. Sabe fazer orações comoventes em público. Há quem não consiga deixar de verter lágrimas quando o ouve orar, tal a intensidade de seu sentimento, a profundidade das palavras, a intimidade com Deus. Quando chamado para falar sobre Deus, está sempre pronto. Ele esquadrinha a pessoa do Altíssimo como poucos, sabe tudo sobre o Todo-Poderoso. Sabe-se que até já orou por uma mulher que estava com o demônio no couro e o bicho foi embora. Quanto aos serviços religiosos, os cumpre metodicamente. Jamais falta às reuniões e não deixa de entregar seus dízimos e ofertas, o que também faz religiosamente.

Uma vez João passou perto de um homem caído na calçada, que havia sido assaltado e espancado logo após sair de uma festa. Atravessou para o outro lado e pensou consigo: “se ele estivesse na igreja orando, isso não teria acontecido”. Outro dia viu na TV que tem gente morrendo de fome em algum país da África. Antes de mudar para um canal ainda balbuciou: “Pagãos! Se servissem a Deus, isso não estaria acontecendo”. Mesmo assim, orou por eles, para Deus providenciasse o alimento necessário. Já ontem, ele leu no jornal que na sua própria cidade há crianças vivendo em condições subumanas, expostas à exploração sexual e ao uso de drogas desde muito cedo. Como sempre faz, orou por elas, mas sabe que se os pais delas estivessem na igreja orando, aquilo não estaria acontecendo.

José não é crente, nem católico, muito embora tenha cumprido os primeiros sacramentos: batismo, primeira comunhão… Antes da crisma já não estava mais freqüentando a religião. Já visitou igrejas evangélicas, mas ele não consegue entender muita coisa que ouve e vê por lá, às vezes não faz nenhum sentido pra ele. Mas há algo que martela em sua cabeça: ele sempre lembra o que ouviu de um pregador certa vez: “o maior mandamento é amar o próximo como a si mesmo”. Nunca parou pra ler, mas ele suspeita que isso esteja na bíblia. Também já ouviu o mesmo princípio sendo pregado por outras expressões de fé.

Certa vez José viu um homem mudando de calçada enquanto outro ficava caído. Foi lá e descobriu que o caído tinha sido assaltado e espancado quando saía de uma festa. Chamou o resgate, ligou para a família e prestou a assistência inicial. Só não entendeu porque o outro homem não tinha feito nada e mudado de caminho. Outro dia ele viu na TV que em algum país da África tem gente morrendo de fome. Não conseguiu ver mais nada na TV naquela noite. Fuçou na internet até que achou uma ONG que presta serviço humanitário no continente africano e fez uma doação. Coisa pouca, mas era o que ele podia fazer. Ontem mesmo ele leu no jornal que na sua própria cidade há crianças vivendo em condições subumanas, expostas à exploração sexual e ao uso de drogas desde muito cedo. Inquieto com essa notícia, procurou um Centro Comunitário na periferia e se alistou como voluntário. Uma vez por semana dará aulas para crianças pobres e as ajudará a descortinar um futuro esperançoso.

Se José estivesse na igreja só orando, nada disso teria acontecido. Tudo estaria como João havia deixado.
Márcio Rosa da Silva

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