Idealizar demais uma pessoa ou uma instituição, seja ela qual for, é a receita para a decepção. Projeções sempre geram frustrações. E se quem é idealizado não quiser ser decepcionante vai ter que ficar se esforçando pra ser o que esperam dele e isso é escravizante, tira qualquer possibilidade de ser autêntico.

Barack Obama foi eleito sob uma aura de quase santidade, um messias. Muitas expectativas. Quase todas frustradas. Ele é apenas mais um presidente estadunidense, não um messias.

No ambiente religioso isso é ainda mais comum. Mitificamos o passado e criamos santos, é a hagiografia cristã. Imaginamos que os santos eram perfeitos e tinham sempre aquela auréola sobre a cabeça. Mas eles foram homens e mulheres, imperfeitos.

O protestantismo também tem sua hagiografia. Mitificamos Martinho Lutero, por exemplo. Ninguém tira os méritos do grande reformador, mas ele se mostrou um anti-semita no fim de sua vida. Escreveu textos destilando ódio aos judeus. João Calvino esteve às voltas com o julgamento e condenação de seu opositor Servetus, que acabou executado. Martin Luther King Jr, um dos meus heróis, quem diria, tinha problemas na área de fidelidade conjugal. Todos são heróis, “santos” protestantes, mas eram apenas humanos, falhos e sujeitos às mesmas dificuldades que qualquer um.

Pode ser chocante ter conhecimento disso, mas precisamos reconhecer que ninguém é perfeito. Somos humanos. Fomos criados assim. E Deus gosta de nós assim mesmo.

Quando criou a humanidade, viu Deus que era muito bom. Deus nos aprecia. Não apenas nos tolera, apesar de nós mesmos, mas aprecia sua criação. Nos ama mesmo, de verdade.

Jesus não idealizou seus discípulos, sabia quem eles eram. Eles não foram chamados por serem perfeitos, mas por estarem dispostos. Deixaram tudo para abraçar uma proposta de vida transformadora trazida por aquele nazareno. A obra de Deus não é conduzida por pessoas perfeitas, mas por pessoas dispostas.

Por isso, não idealize seu pastor ou sua pastora. Eles são apenas humanos. A oração deles não é melhor que a sua e ninguém garante que eles tenham mais intimidade com Deus do que você.

Não idealize sua igreja. Ela é apenas um grupo de pessoas tentando acertar. Um grupo de maltrapilhos que anseiam por Deus, por seu amor e por sua graça. Não há igreja perfeita, nem infalível. Igreja boa não é aquela que se diz perfeita, essa é diabólica. Igreja boa é aquela que faz as pazes com a humanidade de seus membros e abre espaço para que sejamos autênticos. Sem falsas expectativas, sem idealizações adoecedoras, sem projeções escravizantes.

Tem gente que idealiza o Evangelho, desumanizando sua mensagem e fazendo dele um instrumento de opressão através da religião. Mas o Evangelho é libertador justamente porque foi escrito para humanos, não para perfeitos. Esses não são humanos.

Até Deus pode ser idealizado. Quem projeta em Deus um super-homem que vai sempre livrá-lo das enrascadas, vai ficar decepcionado. Quem idealiza Deus como um Papai Noel celestial, que vai sempre dar presentes pra seus filhos que se comportarem bem, também vai se frustrar.

Deus é o amor que abraçou nossa humanidade em Jesus Cristo. Não é um super-homem ou um papai Noel. É Deus.

Por fim, não idealize a você mesmo. Reconheça: você é humano. A vida é frágil, você é imperfeito, não é blindado, nem um santo, mas apenas um ser humano composto de luzes e sombras.

Fazendo as pazes com nossa humanidade, a vida fica mais leve.

Márcio Rosa da Silva

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