Culpa. Eis aí um elemento imprescindível para a manipulação religiosa. No mercado da fé, a culpa é um produto sempre em alta, não como mercadoria propriamente dita, mas como indutora do consumo. Se o consumidor tem culpa, compra qualquer produto que lhe for oferecido para se livrar dela. Na verdade para se livrar do medo. Esse é outro elemento indispensável para manter pessoas no cabresto.

É por isso que o medo é incompatível com o amor. Para ser amor de verdade tem de ser livre, e para ser livre não pode haver medo. Se para amar é necessário ameaçar com um castigo impiedoso, não haverá amor, mas uma submissão forçada. A mulher que permanece com o marido porque este lhe ameaça bater ou matar não o ama, apenas teme por sua vida. Ou, se não é isso, tem uma relação completamente doentia, porque quer ficar com alguém que lhe ameaça o tempo todo.

Já admirei a eloqüência da pregação “Pecadores nas mãos de um Deus irado” de Jonathan Edwards, mas hoje só consigo ver ali uma divindade com sangue nos olhos e babando de vontade fazer sofrer as pessoas, com uma ira represada que, quando irromper, devorará todos os ímpios. Esse Deus é bem diferente daquele que vejo na face de Jesus, que não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.

Jesus é a encarnação de Deus. Deus que tanto amou seus filhos que se fez gente e habitou entre eles. Ele é o amor substantivo concreto. Amor que foi levado às últimas consequências. Mas como os religiosos preferem uma ameaça concreta de punição em vez de uma proposta de salvação gratuita, trataram logo de assassinar o amor. Ainda bem que o amor vence afinal, ressurge e reparte sua vida com seus amigos, seus discípulos. Outra coisa que esse pessoal de sangue nos olhos não tolera é que Deus tenha amigos e não escravos tratados na base do chicote. Sim, Jesus quer amigos, sem medos, sem ameaças, sem retaliações.

Que valor teria a encarnação e toda essa extraordinária história de amor entre Deus e seus filhos se, na verdade, acorre-se a ele por medo da constante ameaça de ser fritado num caldeirão de azeite fervente por toda a eternidade?

O amor de Deus é incondicional. A graça é de graça mesmo. Amor e graça dão liberdade. Culpa e medo levam à escravidão. Um Deus que chama seus seguidores não de servos, mas de amigos, é o que dá a liberdade. Os que quiserem ficar com ele e desfrutarem de sua amizade serão amados. Os que quiserem ir embora, são livres para fazê-lo, continuarão amados. E continuarão sendo esperados de volta. A porta estará sempre aberta.

Quem de nós quer amigos que só ficam ao nosso lado por conveniência ou porque estão sendo chantageados? Se não queremos amigos assim, por que Deus usaria então a chantagem, a ameaça, para que permanecêssemos com ele? Deus não está irado, mas em paz conosco. Ele nos ama. Não há condicionantes para isso. Somos livres para sermos amigos dele, ou não.

Deus é amor e no amor não há medo!

Márcio Rosa da Silva

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