Parece que Jesus tinha uma simpatia pelos marginalizados, tendo em vista os episódios envolvendo samaritanos (considerados impuros), publicanos (considerados corruptos e traidores da pátria), mulheres (nem eram consideradas na época), leprosos, prostitutas (referiu-se a elas como entrando no Reino na frente dos fariseus). Todas essas pessoas eram marginalizadas na época de Cristo, mas todas foram tratadas com dignidade por ele.

Atualmente há muitos excluídos. Do mercado, porque não têm recursos para consumir, e tudo o que é necessário para viver está disponível no mercado para o consumo. Excluídos do lazer mais simples, visto que para tudo é necessário dinheiro. Do mercado de trabalho, porque não têm acesso à qualificação. Só não estão excluídos dos meios de comunicação, que o tempo todo passam a mensagem de que precisam comprar pra serem alguém. Com tanta pressão para o consumo e excluídos do mercado, imaginem a angústia.

Além dos excluídos do mercado, há os que são discriminados, aqueles tratados de forma diferente por algum critério geralmente imposto por uma maioria, ou um grupo com mais poder. São discriminações por questões raciais ou de origem, gênero, orientação sexual, religião, deficiência física ou mental, nível de renda, etc.

O cristão deve ter um olhar sensível para os excluídos e discriminados da sociedade, para que haja inclusão, acolhimento e dignidade a todos, sem exceção.

Também é preciso que o olhar seja espiritualizado, mas uma espiritualidade humana, sem divisões entre o que é espiritual e secular. Essa dicotomia é equivocada. Não podemos olhar a sociedade com esse olhar dicotômico. Nossa herança religiosa ensina que há lugares e momentos religiosos, sagrados, bem separados da vida real, cotidiana. Mas não é assim. Tudo é sagrado, tudo é humano, Deus está em todo lugar, a vida é sagrada. O que quer que eu faça que promova o bem e a vida é espiritual, divino. O que quer que eu faça que promova ou aprofunde estruturas de morte é espiritual, diabólico.

Se servir ao próximo é servir a Cristo, então temos oportunidades constantes de serviço espiritual, que é humano mesmo, e por isso espiritual. Não deve haver separação. É uma coisa só. O campo missionário, onde a principal tarefa é servir, é o mundo ao nosso redor.

Amor e graça devem impregnar esse olhar espiritual humanizado. Ter esse compromisso com o próximo pode parecer uma obrigação pesada, mas deve ser encarado com uma forma de partilha, de ações realmente gratuitas, sem querer receber de volta, sequer reconhecimento. Isso é graça.

Nosso olhar deve estar disposto a transformações. Primeiramente, transformação de si mesmo. Quando conseguirmos transformar nosso olhar, nossa forma de ver e compreender as coisas, nos tornaremos agentes de mudança, de transformação. Renovar nossa forma de pensar e julgar é o começo da transformação do mundo, porque o mundo começa a se transformar a partir de cada indivíduo.

Talvez não saibamos exatamente como eliminar as mazelas da nossa sociedade, mas, ao olhar para elas temos que ter duas atitudes: primeiro dizemos: “está errado, as coisas não precisam e não podem ser assim”; segundo: “vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para mudar o mundo para melhor”.

Márcio Rosa da Silva

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