No artigo anterior tratei de algumas formas de olhar pouco adequadas dos cristãos e da igreja para a sociedade. Mas qual, afinal, deve ser esse olhar? Eis algumas sugestões:

Deve-se olhar a sociedade como um grande campo missionário, no qual a maior missão seja servir. A proclamação do Evangelho através do serviço, que é resultante do amor, é incontestável. Quando se faz assim, não se olha como alguém que está fora e é superior porque já foi “iluminado”, mas como alguém que está dentro do tecido social e se dispõe a servir às pessoas. Tenho a impressão que foi isso que Jesus quis ensinar quando se enrolou numa toalha e lavou os pés dos discípulos e disse “eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz”.

É necessário substituir aquele olhar superior, de quem já tem o céu garantido e tem pena dos miseráveis pecadores que vão para o inferno, por um olhar mais humilde. O cristão, que carrega consigo a esperança do Reino de Deus, tem a responsabilidade de não admitir que as pessoas vivam num inferno aqui na terra.

Mas o inferno existe mesmo? Sim, e é mais real do que se imagina. Atualmente os campos de refugiados somalis são uma prova cabal de que o inferno existe. Mas existem infernos mais próximos de nós. A enfermaria de um hospital público superlotado, uma penitenciária, multidões morando em casas de papelão, sem, sequer, água encanada (como admitir isso nos tempos em que vivemos, quando há tantos avanços tecnológicos?). Infernos bem próximos. Sem contar aquelas pessoas que vivem um inferno existencial por variados motivos, inclusive religiosos.

Deve ser um olhar de compaixão que é o contrário da indiferença, um olhar sensível. Não como alguém que está desconectado da sociedade, mas que dela faz parte, tanto que sente suas dores.

Não é razoável olhar ao redor e não sentir absolutamente nada ao ver as mazelas do nosso mundo. Não é humano estar completamente anestesiado a tal ponto de não se sentir incomodado com os infernos vividos por muita gente, por pessoas que são nosso próximo, por quem deveríamos nutrir tanto amor. É triste saber que tem gente cheia de melindres, que se sente tão “incomodada” por (supostos) problemas que vê dentro da igreja, ou na vida de pessoas que a frequentam, mas não se incomoda nada com o mal que grassa bem debaixo de seus narizes no mundo ao redor.

O cinismo não é uma opção para o cristão. O discípulo de Cristo precisa deixar o seu coração pulsar segundo o pulsar do coração de seu Senhor. O notável sociólogo, teólogo e poeta britânico John Donne, já no século XVII, tinha razão quando escreveu que “nenhum homem é uma ilha inteiro em si mesmo. (…) A morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido na humanidade. Portanto, nunca procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti” (Meditações XVII). Se qualquer pessoa tem sua dignidade aviltada, todas as demais deveriam se sentir afetadas. Compaixão, mesma paixão, mesma dor, mesmo sentimento, compartilhar o sofrimento, a paixão, a dor. Quando a dor do outro doer em nós, vamos fazer algo para aliviá-la.

(continua…)

Márcio Rosa da Silva

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