Nunca se viu uma enchente como a que ocorre agora no Estado de Roraima, pelo menos não nos últimos 30 anos. Ver as águas subindo e tragando tudo, casas, móveis, sonhos, suor derramado na construção, é triste. A única saída é tirar o que for possível e esperar as águas baixarem. Menos mal para os que têm condições de pagar uma transportadora para retirar as coisas e o aluguel de uma casa por alguns meses. Pior para quem não tem nenhuma condição, senão esperar pelo socorro do poder público e pela solidariedade das pessoas.

Num momento dramático como esse, algumas pessoas mostram o que há de pior no ser humano. Botija de gás a 80 reais, aluguéis extorsivos, preços de gêneros alimentícios e até de água acima do comum. Ganância. Egoísmo. E ainda algumas casas desocupadas saqueadas por ladrões. Fico pensando nos japoneses que baixaram o preço da água para que todas as vítimas do último terremoto pudesse adquirir o produto. E lá não houve registro de saques. Triste.

Mas também são nesses momentos que o que há de melhor no ser humano aparece. Solidariedade, compaixão, cuidado. Muitos seguem desesperados para estocar alimento e outros produtos de primeira necessidade. Mas muitos outros correm para repartir um pouco do que tem. Muitos se engajam em campanhas de ajuda. Se alguns o fazem por mero oportunismo, outros tantos o fazem somente pela oportunidade de ajudar.

Quando vejo alguns movimentos de solidariedade organizados por jovens, sem vinculação política, renovo minha esperança numa sociedade melhor, mais justa, mais solidária. Vejo que nem tudo está perdido.

Recentemente o teólogo Jung Mo Sung escreveu que “verdade religiosa não se julga pelo que é dito, mas pelo que é vivido, sua capacidade de gerar amor, compaixão, solidariedade”. É isso mesmo, essa é a verdade. O apóstolo Tiago escreveu que “a religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”. O mesmo autor também escreve mais adiante, em sua epístola, que “se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: ‘Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se’, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso?”.

Não devemos ficar no interior dos templos orando pelos que precisam. Vamos prove-los do que precisam. Essa é a verdadeira religião. Mesmo que nunca tenham estado numa igreja, ou cumprido os ritos, ou recebido os sacramentos, ou qualquer outra coisa, estes que, com um coração voluntário, estão ajudando nossos irmãos roraimenses nesse momento de necessidade, estão praticando a verdadeira religião: o amor, a compaixão, a solidariedade.

 

Márcio Rosa da Silva

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