Essa expressão é muito utilizada quando se quer legitimar algo. Quando alguém quer dar peso a um argumento que é acolhido por muita gente, diz logo que a esmagadora maioria é favorável àquela idéia. Assim o pensamento da maioria é usado para legitimar uma idéia, uma política, uma tese, uma lei, uma religião e até mesmo crimes como discriminação, tortura e genocídio.

Estabelece-se a premissa de que, se a maioria apóia, então é legítimo. Será? Sempre que há um crime muito violento e de grande repercussão, fazem-se algumas pesquisas para saber se a população apóia a pena de morte e a esmagadora maioria apóia. Mas é legítimo? É correto?

É preciso ter cuidado com as maiorias, porque se elas são esmagadoras, podem se achar no direito de “esmagar” as minorias. Hitler tinha a esmagadora maioria do povo alemão legitimando seu regime. Não só o povo, mas também a maioria da igreja de seu país apoiava seu regime. E não era por conta de ameaças ou coisa parecida, mas porque realmente estavam convencidos que a doutrina de Hitler estava certa.

Sob o pretexto de estabelecer um regime de mil anos e consagrar uma raça ariana, os nazistas acharam-se no direito de retirar direitos das minorias como ciganos, negros, homossexuais e judeus. Depois de restringir-lhes os direitos, acharam-se no direito de colocá-los em campos de concentração e depois, como se não bastasse, acharam-se no direito de assassinar essas pessoas em massa. Realmente a maioria foi “esmagadora”.

Quando Jesus chegou em Jerusalém, na semana da Páscoa, foi recebido por uma multidão que o aclamava rei. Alguns dias depois, a mesma multidão estava decepcionada com o discurso não dominacionista de Jesus, com sua proposta de não violência, com seu reino que não tinha os mesmos valores que os reinos desse mundo, com aquele papo de amor ao próximo, com aquela conversa de que Deus ama a todos, sem distinção. Por essa razão, a massa se tornou presa fácil para os religiosos manipuladores de plantão, que conduziram o povo a clamar pela morte de um inocente, diante de Pilatos. A maioria “esmagou” a minoria, no caso, Jesus.

Usar influência para negar ou restringir direitos de qualquer grupo minoritário é um perigo, porque em algum momento pode-se estar inserido numa minoria. Ricardo Gondim relembrou recentemente as palavras do pastor luterano Niemöller, acerca da passividade de toda uma geração na época do regime nazista: “Quando vieram atrás dos judeus, calei-me, pois não era um deles; quando vieram prender os comunistas, silenciei, eis que não era comunista; quando vieram em busca dos sindicalistas, calei-me, pois eu não era sindicalista; depois, vieram me prender, não havia mais ninguém para protestar e ninguém disse nada”.

Como cristão, tenho aprendido a deixar as fáceis avenidas das maiorias e trilhar o caminho estreito, a porta estreita do amor incondicional, da graça admirável e da justiça e do direito para todos, sem distinção. Definitivamente se alguma maioria escolher esse caminho, nunca será “esmagadora”.

 

Márcio Rosa da Silva

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