A proposta era revolucionária. Imagino as inquietações provocadas por aquele jovem de aparência comum, mãos marcadas pelo seu trabalho com madeira, mas com uma mensagem que tinha uma densidade incomum. Havia algo diferente naquele discurso, de tão profundo era impossível passar despercebido. Inspirador, fez homens largarem tudo e segui-lo rumo ao desconhecido, mas fiados na proposta de um outro mundo possível, de um outro reino, de uma outra vida.

Enquanto levava sua mensagem, quebrava tabus: não se incomodava de dar atenção a mulheres de má reputação, o que era uma abominação em sua época; jantava com cobradores de impostos, com fama de corruptos, e por isso também abomináveis; ao dar exemplo de alguém que herdaria a vida eterna, apontou um samaritano, que exerceu misericórdia para alguém caído à beira do caminho (os samaritanos eram alijados da religião dominante e considerados indignos simplesmente por terem nascido samaritanos).

Ele não quis fundar uma religião, mas estabelecer uma conexão com Deus e com a vida, com a realidade, com um mundo em que as coisas poderiam ser diferentes. Rejeitou a violência de qualquer espécie e fez uma proposta ousada: que nossa relação com o mundo, com a vida e com as pessoas fosse fundada no amor. Amar o próximo como a si mesmo, seja quem for esse próximo. Homem, mulher, negro, branco, pobre, rico, hétero, gay, muçulmano, cristão, ateu, evangélico ou católico. Amar é desejar o bem a quem se ama, promover-lhe os direitos, conferir-lhe dignidade, devotar respeito.

Não foi à toa que aqueles que tinham na religião uma fonte de lucro e um meio para o exercício do poder e da opressão trataram logo de planejar seu assassinato.

Se Jesus viesse hoje com a mesma proposta, ele seria muito xingado no twitter, esculhambado na blogosfera, banido dos círculos religiosos como uma grave ameaça à família, à moral e aos bons costumes. Seria chamado de humanista (como se isso fosse um xingamento), relativista, herege e blasfemo, tal qual em sua época. Talvez o prendessem, como fez o Grande Inquisidor de Dostoiévski. Ele não serviria para a religião dominante dos dias de hoje também.

Por que penso assim? Basta ver as cenas de jovens de uma nação cristã protestante comemorando o assassinato de um homem. Por pior que tenha sido tal homem, aquilo é a negação da proposta daquele jovem galileu, que rechaçou qualquer tipo de violência. Ou então, basta navegar pela internet e ver o que muitos religiosos, alguns com posição de liderança e influência, disseram a respeito das pessoas homossexuais ou daqueles que demonstraram um mínimo de simpatia pelo reconhecimento de seus direitos, por conta de um julgamento no STF sobre a questão.

Na primeira situação há a consagração da vingança e a tentativa de vencer o mal com o mal, o que só gera mais violência. Na segunda, na maioria das manifestações o que se vê é um desprezo por aquelas pessoas, que são tratadas como abominação, como indignas de terem seus direitos respeitados, tais como os samaritanos e leprosos eram tratados na época de Cristo. Mas na parábola contada por Ele, quem herda a vida eterna é um samaritano e não o sacerdote ou o levita. É bom pensar a respeito.

Márcio Rosa da Silva

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