O passarinho tinha tudo em sua gaiola, menos liberdade. Todos os dias seu dono lhe trazia comida. Era boa, mas era sempre a mesma. A água era renovada todos os dias e a gaiola era mantida limpa. Suas asas só eram usadas quando tinha que dar um salto do assoalho da gaiola para o pequeno poleiro. Era o mais alto que podia ir. Acima de tudo, tinha segurança.

Um dia a portinhola foi aberta. O passarinho saiu e, desajeitadamente, bateu as asas quase atrofiadas e, finalmente, alçou vôo. Sentiu pela primeira vez o gosto da liberdade. Podia ir livremente para lugares muito mais altos que seu poleiro. Não precisava comer a mesma comida todos os dias, mas ia pelas árvores escolhendo frutas diferentes e de sabores até então desconhecidos. Do alto de seus vôos tinha uma visão nunca antes experimentada. Era lindo. Estava livre.

Mas a liberdade não lhe trouxe segurança. Agora tinha que se preocupar com predadores. Tinha que construir seu próprio ninho, não contava mais com os jornais velhos que forravam sua gaiola. Tinha que se relacionar com outros pássaros e com espécies diferentes da sua, que também habitavam as árvores por onde pousava. Quando se aproximava de alguma casa, tinha que se precaver do gatuno que poderia lhe devorar. A liberdade tinha seu preço.

Cansado disso tudo, sentiu saudade da gaiola. Voltou para a antiga casa, achou a portinhola ainda aberta e entrou. Seu dono, comovido, fechou a gaiola. O passarinho voltou a ter segurança. Mas nunca mais sentiu o gosto da liberdade.

É Rubem Alves que usa a história acima como uma metáfora da condição humana. O velho mestre trata do trabalho que dá ser livre em contraste com o comodismo chato e a mesmice que é a segurança de uma vida engaiolada. Passarinho de verdade nasceu para voar. Se não quer a liberdade é porque já lhe convenceram de que não pode voar, roubaram-lhe essa característica.

Homens e mulheres não são diferentes. Muitos preferem a ignorância aos horizontes ampliados pelo conhecimento. Lembro-me de um personagem de Matrix que, ao retornar para o mundo irreal e comer um bife que sabia não ser verdadeiro disse: “a ignorância é uma benção”. Preferiu a mentira do mundo virtual que a verdade do mundo fora da matrix.

Apoderando-se de verdades absolutas e inquestionáveis, pessoas se acomodam, porque isso traz segurança. Ao serem apresentadas à possibilidade de vôos mais altos no mundo do conhecimento, ensaiam um salto, mas logo retornam para a segurança dos antigos paradigmas, das bases supostamente sólidas, ainda que sem o menor sentido. Não querem ver além do que já conhecem, não desejam ter outras perspectivas, não admitem outros pontos de vista.

Essa atitude tacanha fere nossa própria humanidade, pois fomos criados com uma capacidade extraordinária de pensarmos, questionarmos, conhecermos cada vez mais. Se não o fazemos, somos como o passarinho de Rubem Alves. Os que se apegam a algumas idéias e nunca admitem a possibilidade da mudança de pensamento é um escravo, está condenado à involução, nunca vai voar e ter as sensações que só os que tem coragem de pensar experimentam.

Prefiro seguir o ideal revolucionário do jovem nazareno Jesus, que, há dois mil anos, queria que seus seguidores fossem livres, verdadeiramente livres.

Márcio Rosa da Silva

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