A vida acontece em família, em grupos, seja uma família biológica ou não. Precisamos de pessoas e de família. Fomos feitos para viver e conviver com outras pessoas. Ouvi de Adélia Prado que “família é o lugar onde temos toda a alegria e toda a dor. Onde temos toda a felicidade e toda a tristeza”.

Uma família é feita de afetos, de sentimentos. O vínculo que forma uma família não é o sangue, mas o afeto, o amor. Todos nós vivemos em família. Sempre há alguém, pais, irmãos, tios, filhos, primos, sobrinhos, netos, bisnetos, e quando não há mais ninguém da família, há os amigos, que às vezes são mais chegados que um irmão.

A família passa por transformações, mas continua sendo um porto seguro, ou pelo menos deve ser esse porto seguro afetivo, emocional, de todos nós. Lugar em que somos queridos, amados de graça, sempre perdoados, sempre acolhidos. Mas para que assim seja é necessário observar algumas pistas.

Primeiro é preciso acabar com o mito de que existe família perfeita. Existem famílias felizes, mas não perfeitas. Uma família só tem a chance de ser feliz quando reconhece suas limitações, seus problemas, seus desajustes e suas imperfeições. Há pessoas que vivem culpadas porque suas famílias têm problemas. Elas não estão sozinhas. Família normal é aquela que tem problemas e tenta resolvê-los, não as que não têm problemas, estas não existem.

Também é indispensável que as “fórmulas infalíveis” para resolver problemas familiares sejam descartadas. Cada pessoa é um mundo, um universo. As pessoas são diferentes e reagem de modo diferente, por isso um mesmo conselho pode ser bom pra uma família, mas inócuo ou pernicioso para outra.

Edificar uma família dá trabalho, é preciso estar disposto para isso. Na cultura do fast-food tudo tem que ser imediato, queremos algo que funcione rapidamente, apertar um botão e tudo funcionar. Conflitos podem ser resolvidos, mas leva tempo e muita disposição. Não há mágica. É preciso trabalhar aos poucos e com constância.

Dedicar tempo, um tempo com qualidade com a família é de um valor inestimável. Pequenas tradições devem ser sagradas: refeições à mesa, com todos reunidos e conversando olhando-se uns para os outros, a conversa no fim do dia que demonstra interesse pelo outro, os passeios, por mais simples que sejam, mas que marcam as emoções para sempre.

Nessas oportunidades você pode transmitir seus valores para seus filhos para sejam cidadãos responsáveis no futuro. Foi Frei Betto que escreveu: “Ensina a teus filhos evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que tenta nos incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética do que a ética. Convence-o de que a felicidade não resulta de prazeres e a via espiritual é um tesouro guardado no fundo do coração – quem consegue abri-lo desfruta de alegrias inefáveis”.

Finalmente, os relacionamentos familiares devem ser permeados de Graça. Graça que ajuda a perdoar, compreender, acolher, a tolerar, a não fazer exigências descabidas, a crer que um recomeço é sempre possível, a corrigir com firmeza e, ao mesmo tempo, com ternura.

A sociedade adoecida é o resultado de famílias adoecidas. A cura para isso talvez esteja em transformar as famílias em um lugar de afetos.

Márcio Rosa da Silva

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