Quando Jesus afirmava categoricamente que seu Reino não era deste mundo estava com isso dizendo que seu Reino não tem as mesmas práticas dos reinos deste mundo, suas categorias são outras, seus princípios são outros, sua lógica é outra.      Pela lógica mundana um reino, um império, um país, sempre se sobrepõe a outro pela força, pelo seu poder bélico ou econômico. Mas o Reino de Jesus não é assim. No Reino de Deus o poder é outro, as relações não são baseadas no poder, mas no amor e no serviço.

Mas os discípulos de Jesus, a despeito de estarem numa espécie de intensivão, porque estavam com ele o tempo todo, ainda não entendiam a dimensão do seu Reino, os princípios desse Reino, e ainda tinham a expectativa de que Jesus seria um rei como outro qualquer, que se imporia pela força e ainda por cima usando poderes sobrenaturais para isso, o que o colocaria em ampla vantagem sobre outros monarcas. Sim, porque já o tinham visto ressuscitar Lázaro, transformar água em vinho, multiplicar pães, então derrubar Pilatos e chegar a César, não seria muito difícil.

Tanto aspiravam por isso, que já estavam querendo dividir os melhores cargos. Queriam saber quem seriam os ministros do novo Reino. No episódio da Santa Ceia eles entraram numa discussão sobre quem seria o maior no Reino de Deus.

O tempo já estava acabando. Naquela noite Jesus seria preso e levado a um julgamento injusto e, dentro de algumas horas, seria crucificado. Depois de três anos andando com aquele pessoal, nas horas finais, Jesus ainda vê seus discípulos, como crianças, querendo saber quem era o maior. Acho que se fosse eu, pensaria comigo: “Falhei, não deu certo, que pena, deu tudo errado”.

Mas mesmo naquele contexto, nas horas finais, Jesus vê uma oportunidade para ensinar a natureza do seu Reino para seus discípulos. Enquanto era servida a ceia, levantou-se da mesa, tirou sua capa, enrolou uma toalha na cintura, colocou água numa bacia e lavou os pés dos discípulos, para surpresa geral. Aquela tarefa era dos escravos, ou do menor filho da casa, da pessoa menos importante, nunca de um mestre. Pedro até hesitou em aceitar ter seus pés lavados por Jesus, porque era inconcebível que o mais importante fizesse o trabalho do menos importante. Mas Jesus queria dar-lhes a lição. Queria que as palavras se transformassem em prática: “Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. Mas, vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa como o que serve”.

Quando terminou, ainda sob olhares espantados, disse que deveriam fazer o mesmo, e que seriam felizes, bem-aventurados, se o fizessem.

Lavar os pés, servir, estar disposto a ajudar os que nos rodeiam. Eis o caminho para um mundo solidário, justo e feliz. E ainda que pareça impossível mudar o mundo, é possível mudar-se a si mesmo e isso já será o começo de uma transformação maior. Ele deu o exemplo para que fizéssemos o mesmo. Quão diferentes seriam as coisas, se servir humildemente uns aos outros fosse uma realidade.

Márcio Rosa da Silva

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