Márcio Rosa da Silva

O título desse texto é uma tirada do Ed René Kivitz, repetida por ele várias vezes num dos Encontros de Reflexão e Espiritualidade, que ocorriam anualmente em Águas de Lindóia até bem pouco tempo atrás. Eu estou com a mesma sensação. Se Jesus não mentiu, então me ensinaram errado, ou então não entendi nada.

Minha saga em tentar ser um discípulo de Jesus começou aos 9 anos, quando, trêmulo, confessei ao sacerdote meus “pecados”, para depois comungar pela primeira vez. Já tinha desobedecido minha mãe, mas nunca tinha matado passarinho, pecado grave para aquela idade, mesmo assim paguei a penitência. Queria ser um discípulo correto.

Mais tarde, já durante a adolescência, ensinaram-me que para ser um verdadeiro discípulo cristão era necessário ter uma aparência austera. Mesmo com pouco mais de 15 anos de idade, tinha que andar de paletó e gravata, não podia usar bermuda ou jogar futebol, nem ir ao cinema. Felizmente, consegui libertar-me de tão pesado, e inútil, jugo.

Eu continuei no meu intento de saber como é ser um discípulo, um seguidor genuíno de Jesus. Então me disseram que para tanto era necessário conhecer, crer e jamais questionar uma série de dogmas. Verdades absolutas que tinham sido elaboradas a partir da interpretação de pessoas também inquestionáveis, fundadores de Escolas Teológicas que tinham tido a verdadeira iluminação para interpretar os textos sagrados. Depois deles, nada mais pode ser articulado ou pensado. Mesmo que tais interpretações deixassem em segundo plano a misericórdia, compaixão e o amor ao próximo, porque mais importante que o promover a dignidade da pessoa seria manter a integridade da reta doutrina. Sabendo declamar umas quatro leis espirituais e um punhado de regras eclesiais seria o suficiente. Claro que quem não coubesse nesse caixotinho doutrinário, estava fora, não era bem-vindo.

É aí que fico pensando se Jesus mentiu, ou me ensinaram errado, ou não entendi nada. Porque Jesus disse bem claramente como é que seríamos reconhecidos como seus discípulos. Num tom bastante informal, momentos antes de iniciar sua paixão, ele fala aos seus seguidores: “Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13.34-35). Pronto, não é com uma aparência austera, ou seguindo à risca um conjunto de ritos e credos, ou gritando pelas ruas que o Brasil é de Jesus, mas amando uns aos outros, como ele nos amou. É assim que seremos discípulos de Cristo.

É claro que é mais conveniente pregar que a rigidez dogmática ou a austeridade comportamental é que faz um discípulo, porque isso aprisiona as pessoas e as torna manipuláveis. Tem também o fato de que para crer que o amor é que faz o discípulo é preciso amar o próximo, seja esse próximo quem for. Nem todos estão dispostos a isso, porque preferem a exclusão ao acolhimento que só um amor semelhante ao de Jesus é capaz de promover. É bom lembrar que ele tanto amou que entregou sua vida por todos. Repito, por todos, sem distinção. Acho que Jesus não mentiu. Também acho que começo a entender o que ele disse. Mas ainda estou apenas no início de uma longa jornada.

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