Márcio Rosa da Silva

Recentemente fiz algo que poucas pessoas no mundo se atrevem a experimentar. Corri uma maratona, com seus 42 quilômetros e 195 metros. Para mim, durou 4 horas e 54 minutos. Para os quenianos do pelotão de elite, cerca de 2 horas e 10 minutos. Mas, como todo corredor amador sabe, nesse tipo de prova o desafio é chegar.

Além de me sentir mais saudável, correr me ensinou muito sobre a vida. Quando comecei, cerca de três anos atrás, estava quase morto depois de 2 km. Quando cheguei aos 5 km estava tão exaurido que pensei jamais conseguir chegar aos 10 km. Mas treinei, e corri a “9 de julho”, uma vitória. Queria agora avançar. O sonho de uma maratona ainda era distante e parecia irrealizável.

Propus-me a treinar. Aos poucos fui aumentando a quilometragem. Com exames médicos indicando que estava tudo bem, avancei. Mas nos
“longões” cheguei ao máximo de 34 km pelas ruas de Boa Vista. Os 42 km, só no grande dia. Eis uma das lições que aprendi: assim como na vida, em que não se sabe como será o futuro, eu não sabia o que me aguardava depois dos 34 km, tudo seria novidade, eu teria que lidar com adversidades ainda não experimentadas. E foram muitas. Sol forte, dores por todo o corpo, as pernas pesando demais. Mas a vontade de chegar era maior que tudo isso.

Outra lição que para mim foi contundente: com dedicação, persistência e constância, quase tudo é possível. Três anos atrás eu estava esbaforido depois de correr dois mil metros, se tivesse desistido jamais teria tido a maravilhosa experiência da superação e da realização pessoal que é cruzar a linha de chegada de uma maratona.

Como na vida, é importante manter o ritmo adequado, para não faltar energia no fim. Para chegar é preciso ir com calma. Os mais afoitos ficam pelo caminho. Quem vai com muita sede ao pote se dá mal, “quebra” na metade do percurso.

Mas, talvez, a coisa mais importante que aprendi é que não se cruza a linha de chegada sozinho. Depois de quase 5 horas correndo sob sol forte, quando cheguei, várias pessoas chegaram junto comigo. E não estou falando dos meus colegas corredores. Refiro-me aos que ajudaram, os que me conduziram até lá.

O Ricardo Gondim foi o cara que inspirou a correr. Tendo corrido 14 maratonas, seu exemplo me arrastou para o asfalto. Ele atravessou a linha chegada junto comigo. Meu treinador, o Adalberto, gritando pra mim que avozinha dele corria melhor do que eu e praticamente me arrastando nos longões, chegou comigo. O Kyldery e o Felipe, que me acompanharam nos treinos para levar água, indispensável para o corredor, cruzaram junto comigo a linha de chegada. Meus amigos e a comunidade Betesda que ficaram torcendo por mim, todos atravessaram comigo. A Viviane, minha amada, que aos 30 km saiu do meio da torcida, apareceu ao meu lado, correu alguns metros para entregar umas castanhas e me dar um beijo, chegou comigo. Com a força daquelas castanhas e daquele beijo, consegui chegar aos 42 km.

Assim como na vida, numa maratona a alegria da chegada deve vir acompanhada de gratidão. É assim que me sinto. Grato.

Anúncios