Márcio Rosa da Silva

Outro dia um jovem me perguntou qual seria uma boa estratégia para testemunhar Cristo ao mundo. Antes que eu pudesse responder, ele já deu sua sugestão. Logo vi que ele não queria minha resposta, mas sim que eu concordasse com a dele. Ele disse, empolgadamente, que seria necessário fazer grandes eventos, que reunissem milhares de pessoas, com cantores gospel de renome, com palavras de ordem que repreendessem o “espírito” da violência, da corrupção e da pobreza do meio do povo. Aí então o nome de Jesus seria glorificado e o Reino de Deus estabelecido, segundo o jovem entusiasta.

Procurando um jeito cuidadoso para não melindrar o rapaz tão cheio de boa fé, tive que discordar dele. Convidei-o para uma caminhada, e, enquanto andávamos de maneira displicente, tentei mostrar outra forma de dar testemunho do Evangelho. Minha conversa foi mais ou menos a seguinte:

Em primeiro lugar, grandes ajuntamentos são excelentes demonstrações de poder. Entretanto, a proposta daquele jovem nazareno, que foi chamado Cristo, não era de poder, mas de amor. Seu poder consistiu exatamente em abrir mão de todo o poder para tornar-se fraco. Nenhum projeto que seja de estabelecimento de hegemonia religiosa, ou de qualquer outra natureza, tem alguma relação com o projeto de Cristo.

Depois, o testemunho de Jesus não será dado de maneira bombástica e espalhafatosa, mas sim na discrição dos lugares aonde ninguém quer ir. Longe dos holofotes, dos microfones e dos lugares altos.

O bom testemunho de Cristo é dado por aquele anônimo que visita a ala de doentes terminais para jogar cartas com eles, dando-lhes um pouco de dignidade na hora da morte, dignidade que talvez seus familiares lhes recusaram.

O bom testemunho de Cristo é dado por aquela mulher que vai ao Abrigo quase todos os dias cuidar uma criança com paralisia cerebral, vítima de uma tentativa de aborto malsucedida, e que foi abandonada como nem a um animal se faz. Que testemunho vibrante!

O bom testemunho de Cristo é dado por aquela pessoa que contribui com seus recursos, com seus talentos pessoais e com o seu tempo em iniciativas voluntárias e sem qualquer outro interesse que não seja amenizar a carência de outros, num país onde ainda há tanta miséria.

Em vez dos grandes eventos, é necessário ir para os valados, para os becos, para os grotões, para os lugares onde estão aqueles que ninguém mais quer amar.

Quanto às palavras de ordem a repreender a violência, a corrupção e a pobreza, disse ao rapaz que eu as achava inócuas. Violência se repele com a cultura da paz e a conscientização das pessoas. A corrupção se combate com a responsabilização dos corruptos e o afastamento dos mesmos da vida pública. Quanto à pobreza, uma boa maneira de diminuí-la seria estimular a todos a terem uma postura mais generosa.

Terminei a conversa com o jovem rapaz dizendo que assim era a forma como eu entendia ser possível dar testemunho de Cristo nos dias de hoje e cooperar para a implantação do Reino de Deus aqui na terra. Já no finalzinho da caminhada, percebi o rapaz algo inquieto. Ele agradeceu o bate-papo e foi embora pensativo. Não sei se ele concordou comigo, mas acho que pelo menos o fiz pensar de um modo um pouco diferente.

Anúncios