Márcio Rosa da Silva

Fiquei embevecido com o texto “O Deus bailarino” de Ed René Kivitz, no qual ele desconstrói a comparação do Reino de Deus com os reinos medievais ou com uma máquina que funciona sempre que acionada. Com conceitos de física quântica, afirma que cada pessoa responde de maneira diferente nas mais diversas situações e que Deus sabe disso. Cada pessoa é singular, formando assim uma teia, rede ou dança. E Deus é bailarino. Diz que “quem acredita no mundo como um ser vivo onde cada ser e cada relação é singular, não consegue se submeter a esquemas, não tem a pretensão de gerenciar pessoas, não confia em métodos e nem se impressiona com números, estatísticas e probabilidades. Prefere outros caminhos. Escolhe o caminho da intimidade com o outro; encanta-se com o mistério do sagrado; maravilha-se com a diversidade; presta atenção no jovem em conflito; ouve os dramas do homem que não pára em emprego; fica em silêncio diante da dor e se ajoelha para orar antes de dar um passo sequer em qualquer direção. Esses não se dão muito bem com o Deus-general, ou o Deus-relojoeiro. Curtem mais o Deus-bailarino”.

Toda essa idéia de Deus-bailarino inspirou-me a refletir em como as artes nos aproximam de Deus. Pelo menos comigo funciona assim: sempre que tenho contato com alguma apresentação artística primorosa, percebo também a beleza e a criatividade de Deus. Talvez todo artista tente tanger o sagrado através de sua arte. Não é difícil entender assim ouvindo Mozart. Ainda mais quando à sua obra se acrescentam os tambores brasileiros, formando algo inusitado, mas em perfeita harmonia e de uma beleza de arrepiar.

O mais novel estudante de filosofia aprende que o fim da arte é o belo, este é o seu objetivo. Então não há maior beleza que a de Deus, de modo que o artista, mesmo inconscientemente, tateia em busca do divino.

Gilberto Gil deixa isso bem claro quando canta quase um lamento: “Se eu quiser falar com Deus/Tenho que ficar a sós/Tenho que apagar a luz/Tenho que calar a voz/Tenho que encontrar a paz/Tenho que folgar os nós/Dos sapatos, da gravata/Dos desejos, dos receios/ Tenho que esquecer a data/Tenho que perder a conta/Tenho que ter mãos vazias/Ter a alma e o corpo nus” (in Se eu quiser falar com Deus).

Renato Russo também expressa seu desejo de compreender a Deus quando clama: “Quem me dera, ao menos uma vez, entender como um só Deus ao mesmo tempo é três. E esse mesmo Deus foi morto por vocês – É só maldade então, deixar um Deus tão triste” (in Índios).

Impossível não se lembrar da grandeza e beleza de Deus contemplando uma tela de Van Gogh ou Rembrandt.

Impossível não se comover com Cora Coralina quando ela deseja ser aquilo que Jesus nos disse para ser: “Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida.” (in Não Sei…)

É difícil não chorar e não amar a vida e perceber o quanto é bela, ouvindo o legendário Louis Armstrong cantando “What a wonderful world”.

Deus criou tudo o que há como um exímio artista. A maldade humana é que enfeia o mundo. Ainda bem que em Jesus a beleza de todas as coisas pode ser resgatada. E ainda bem que há artistas, verdadeiros artistas, que continuam a nos desvendar o sagrado através de seus talentos. Também quero aprender a cultuar a Deus com arte e beleza.

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