Márcio Rosa da Silva

Eu tento imaginar a cara de espanto dos freqüentadores do templo, quando viram um ilustre desconhecido virando as mesas dos cambistas, que afinal de contas estavam ali fazendo seu trabalho, e descendo o chicote nos vendilhões que pululavam nos acessos ao lugar mais sagrado para o judaísmo. Espalhou tudo o que era vendido, esparramou o dinheiro no chão e deu uma bronca: “Parem de fazer da casa de meu Pai um mercado!” Jesus virou a mesa, literalmente, quando encontrou no templo de Jerusalém um verdadeiro comércio que se aproveitava do sagrado para lucrar.

No decorrer de toda a história do cristianismo, por diversas vezes, a igreja fez exatamente aquilo que seu Senhor reprovou: comércio do sagrado. Desde a constantinização da igreja no século IV, já houve comércio de quase tudo, relíquias, perdão de pecados (as famosas indulgências), lugar no céu, títulos eclesiásticos e outras quinquilharias.

Nestes dias mais recentes, há um reavivamento do comércio da fé, com líderes extorquindo fiéis em troca de milagres, comercializando o voto dos fiéis, vendendo, ou doando em troca de uma oferta, rosas ungidas, óleo de Israel, água do Jordão, areia no Sinai, e uma lista sem fim de mercadorias.

O templo era o espaço religioso da época, que Jesus bem disse que agora não se limitava mais ao templo, porque os verdadeiros adoradores adoração em espírito e em verdade, independente do local. Então os cambistas de hoje não são aqueles que vendem algo no templo, apenas. Mas qualquer um que se aproveite do sagrado, da (boa) fé das pessoas e lucre com isso, faça comércio disso.

Mas ainda é mais do que isso. Jesus deixa bem claro que o templo é a pessoa. Diz que Deus vem morar no coração da pessoa, sendo este, portanto, o verdadeiro e mais perfeito templo, não feito por mãos humanas. Sendo assim, é bem capaz que estejamos sendo cambistas no nosso templo, no nosso coração.

Será que não estamos negociando aquilo que é, ou deveria ser, sagrado? Será que, como os vendilhões do templo, não estamos profanando o templo de Deus, que é nossa vida? Quando você negocia um valor moral, quando abre mão de uma virtude, quando escolhe o lucro fácil, em lugar de um negócio honesto, você está na mesma posição que aqueles vendilhões. Profanando o que deveria ser sagrado.

Deus habita em seu coração. Mas será que não há cambistas demais nele? Quanto você tem negligenciado aquilo que realmente deveria alimentar seu coração, suas emoções, por conta de uma busca desenfreada pelo prazer instantâneo e fugaz? Imagine as vezes que você deixou de estar com quem realmente gosta de você, só pra fazer média com quem não te dá a mínima e apenas vê em você alguém útil? Quantas vezes você esteve a ponto de explodir por causa de tantas cobranças, tantas expectativas com relação a você, quando você poderia tão-somente descansar num Deus que é Pai? Vendilhões, cambistas que lhe roubam a alma.

Chega uma hora que você precisa virar a mesa e fazer uma faxina no seu templo, seu coração. Ele é um solo sagrado. Deus habita nele. Faça isso para seu próprio bem.

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