Márcio Rosa da Silva

Confesso que tem sido difícil assistir aos telejornais nesses últimos dias. Não há como não se emocionar com tamanha dor daquelas pessoas que sabem que seus mais queridos estão debaixo de toneladas de terra. Não, não tenho como dimensionar aquela dor. Mas tento imaginar o sentimento de pavor, angústia, tristeza profunda, choque, de ter a casa tragada por uma avalanche de terra e, ainda pior, além de ter os bens materiais soterrados, saber que aqueles a quem você mais ama também estão lá embaixo e você não pode fazer absolutamente nada.
E pensar que essa tragédia em Niterói podia ser evitada. Não que tenhamos que lutar contra a natureza, a ela nos adaptamos, e só. Então, se já se conhece bem os ciclos das chuvas e é sabido de todos que as encostas de morros são vulneráveis, é evidente que ali não pode haver habitações. Nunca devia ter sido permitida a construção de casas naquela área. Para piorar ainda mais a situação, o morro era um aterro sanitário. Maior ainda a irresponsabilidade dos gestores públicos.
Não, a culpa não é das pessoas que ali construíram sua vida e patrimônio, muitas delas sem nenhuma opção. Mas daqueles que poderiam ter proibido, antes da área ser ocupada, e não o fizeram. O argumento de que o Poder Público não poderia fazer nada é inaceitável. Há sim, poderes legais para evitar esse tipo de ocupação. Sou levado a acreditar que não são tomadas medidas mais duras porque são impopulares, não rendem votos, às vezes muito pelo contrário. Mas entre perder votos e vidas, meu Deus, que sejam salvas as vidas.
Até quando vamos assistir desmoronamentos e mortes a cada tromba d’água? As tempestades vão continuar acontecendo. Mas não é necessário que mais gente morra nessas encostas. Tanto dinheiro para a Copa do Mundo, para as Olimpíadas, para obras faraônicas, e quase nada para planejamento urbano e realocação dessas famílias.
Enquanto isso, o povo brasileiro dá um show de solidariedade. Doações de alimentos, roupas, abrigos em escolas e igrejas, coisa bonita de se ver. Além disso, gente que, mesmo tendo perdido todo o seu patrimônio e ainda pessoas da família, demonstra ter forças para recomeçar. Povo raçudo. O mesmo não se pode dizer dos políticos que deixaram as coisas chegarem a esse ponto.
A solidariedade é importante, mas apenas ameniza os efeitos da tragédia. É preciso seriedade, planejamento e pulso firme para efetivamente evitar que mais vidas se percam de maneira tão dramática. Decisões devem ser tomadas agora para que nossos filhos e netos não assistam ao mesmo espetáculo de terror que nós. Que os líderes mandatários não se furtem a isso.

Anúncios