Márcio Rosa da Silva

Algo de muito errado acontece numa sociedade que não se indigna quando seus jovens morrem de modo violento nas ruas da cidade. Não é certo, não é aceitável, que uma garota de 14 anos tenha a vida interrompida pela violência bestial que assola nosso trânsito. A maioria das vítimas desse absurdo é composta de jovens. E já são 39 vítimas apenas nesses três primeiros meses do ano. A manter-se essa média, chegaremos ao fim do ano com mais de 150 mortos, vítimas da violência no trânsito. É como se um avião cheio caísse matando todos os ocupantes.

Infelizmente o impacto dessas mortes sub-reptícias não é o mesmo que o da queda de um avião. Mas para as famílias violentadas a dor é a mesma, são devastadas pela perda, que poderia ter sido evitada. Há de haver ações mais enérgicas do poder público com relação à fiscalização dos condutores. Também é necessária a instalação de mecanismos eficazes para coibir a alta velocidade nas ruas de Boa Vista.

Mas, em primeiro lugar, é necessário que haja uma tomada de consciência por parte de todos os que formam o trânsito: condutores de carros, de motos, ciclistas e pedestres. As conseqüências da irresponsabilidade são gravíssimas e um dia podem chegar até a casa de qualquer um de nós. Preciso confessar, eu mesmo já tirei o pé do acelerador. Eu corria bem mais, mas agora sei, percebi, compreendi, que no trânsito a pressa pode ser fatal. Mais importante é chegar ao destino, com cuidado e responsabilidade.

O trânsito é um espaço que precisa de um pouco mais de gentileza. Somos seres muito agressivos na condução de um veículo, às vezes parece haver uma guerra não declarada pelas ruas da cidade. A guerra pode não ser declarada, mas as vítimas são reais e muitas. A vida tem de ter prioridade nisso tudo. A vida é muito preciosa para ser interrompida, assim, abruptamente. Se fôssemos mais gentis e polidos no trânsito, essa tragédia acabaria.

Inquieta-me o fato de que moramos numa cidade em que a quase totalidade da população se declara cristã. Que cristianismo mais fajuto é esse que vivemos? Nossas atitudes no trânsito revelam que tipo de cristãos estamos sendo. E a julgar pelos números, somos péssimos. A menos que eu tenha entendido errado, Jesus falou coisas como andar a segunda milha, dar a outra face, perdoar setenta vezes sete, amar o próximo (o outro motorista, o pedestre, o ciclista) como a si mesmo, vencer o mal com o bem e coisas do tipo. Se esse tipo comando fosse observado no trânsito de Boa Vista, teríamos um trânsito mais pacífico e mais cristão também.

É necessário lembrar que ser cristão diz mais respeito às nossas atitudes fora da igreja, inclusive no trânsito, do que com nossas visitas a um templo ou ao cumprimento de rituais. Indignar-se é preciso. E mudar de atitude também.

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