Márcio Rosa da Silva

A espiritualidade na época de Jesus era avaliada pela estética. Em especial para os fariseus, grupo sectário dentro do judaísmo, tudo o que importava era cumprir um programa de aparência exterior. Qualquer coisa que fugisse daquele padrão por eles estabelecido os agredia e era considerada uma heresia.

Os tempos mudaram, mas o modo como se avalia a espiritualidade de alguém, não. Ainda se usam as mesmas medidas dos fariseus contemporâneos de Jesus. Ainda se valoriza uma espiritualidade apenas estética. Ainda há melindres e preconceitos mil. Ainda se julga pela aparência.

Jesus faz uma proposta muito, mas muito mais radical de espiritualidade: amar a Deus com todas as suas forças, entendimento e de todo o coração e ao próximo como a si mesmo. Tornar-se um cristão não é converter-se a uma doutrina, mas ao amor.

Jesus quebrou os paradigmas da época para viver uma espiritualidade baseada tão-somente no amor, que é a graça. Ele disse algumas vezes que veio para salvar e não para condenar, veio para os doentes e não para os (que se acham) sãos.

Isso fica bem claro quando ele dialoga tranquilamente com uma mulher samaritana (o que era proibido aos “homens de bem” da época), quando, em vez de dispensar uma multidão faminta, sente compaixão dela e a alimenta, quando recebe a unção por uma “pecadora” que chora aos seus pés e os enxuga com os cabelos, quando ele perdoa uma mulher que a turba estava disposta a apedrejar.

Tem, pois, Jesus, autoridade para nos fazer um chamado radical, para viver uma espiritualidade baseada no amor. Espiritualidade cristã é saber amar. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Lembrando que o próximo a ser amado é a minha família, meus amigos, meus irmãos, mesmo pessoas desconhecidos e até inimigos.

O chamado é para um amor semelhante ao de Deus, que não cobra nada, não cobra desempenho, apenas se oferece. É aquele amor que cobre uma multidão de pecados. Que não se importa em ter uma verdade superior e implacável, mas que apenas ama. É um amor que não reprova todos ao redor, mas apenas ama.

Desconfie de quem mantém uma estética espiritual e religiosa irrepreensível, mas fala de outros de maneira impiedosa e implacável. Os fariseus saíam de suas orações e jejuns para planejar o assassinato de Jesus. Quem ama, ama a despeito dos muitos defeitos dos outros e reconhece as suas próprias fragilidades e limitações. Quem ama sempre tem uma palavra de apreço, de compaixão e de misericórdia, porque a boca fala do que o coração está cheio.

Com indivíduos conscientes dessa radicalidade do amor, a igreja deve ser uma comunidade de amor. Não um amontoado de gente implacável e sem misericórdia. Não é um museu para santos, mas um hospital para pecadores, como disse Brennan Manning. Um lugar que seja um oásis de amor, em meio a um deserto de indiferença, onde com graça, todos, indistintamente, sejam acolhidos. E isso é muito radical.

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