Márcio Rosa da Silva

Seria notícia em todos as mídias do mundo: “Avião de grande porte, lotado, caiu em Boa Vista e todos os 113 ocupantes morreram”. Outra que daria primeira página em todos os lugares: “Conflito violento em uma cidade da Amazônia resulta em 7.105 feridos”.

Ainda bem que nenhum avião lotado caiu por aqui, nem houve um conflito desse tipo em nossa cidade (mais ou menos) pacata. Mas os números são reais. Deu na Folha. Até outubro desse ano de 2009, 113 pessoas morreram no trânsito e outras 7.105 foram atendidas no Pronto Socorro com ferimentos decorrentes de acidentes de trânsito. São números escandalosos. Mas por que não chocam como se fosse a queda de um avião ou um massacre provocado por um grupo armado ou coisa do tipo? Primeiro, porque as mortes acontecem no decorrer do ano inteiro e não de uma só vez. Assim, o choque vai sendo diluído com o passar dos dias. Segundo, porque a vida está banalizada mesmo, aviltada, sem valor algum.

É preciso um tratamento de choque! Não é possível sair todos os dias de casa como se estivéssemos indo para uma guerra, em que todos os dias há mortos e muitos feridos. É preciso passar pelos muitos acidentes que ocorrem na cidade, não desviando e dando graças a Deus por não ser você ou alguém da sua família, mas tentando se colocar no lugar da família que foi atingida pela tragédia. Talvez assim você tire o pé do acelerador e seja mais responsável no trânsito.

Muita gente tem culpa quanto a estes números horríveis, mas não adianta nada apenas transferir a responsabilidade para terceiros. Cada um de nós deve se ver responsável por isso. Cada um deve fazer sua parte, inclusive os governos. Para quê fazer do seu veículo uma arma? Afinal, a vítima pode ser você mesmo.

Outra coisa me intriga: numa cidade em que a maioria das pessoas se diz cristã, o trânsito deveria ser, por assim dizer, mais cristão. Dirigir também é uma exercício de espiritualidade. Sim, tirar nossa espiritualidade de dentro das igrejas e levá-la para as ruas é uma urgência. Se os princípios ensinados por Jesus Cristo fossem vividos no cotidiano, como tem de ser, ninguém negaria passagem para outro carro nem faria uma conversão proibida para encurtar caminho, afinal não se importaria de andar uma segunda milha. Também não haveria discussões violentas por ter levado uma fechada de um imprudente, dar a outra face seria realidade e seriam bem aventurados os mansos. Ninguém correria tanto e viveria tão tenso ao volante, porque saberiam que basta a cada dia seu próprio mal, são vãs as tensões e preocupações exageradas.

Por fim, todos dariam valor à sua própria vida e à dos outros e não seriam tão inconsequentes no trânsito, porque levariam a sério os mandamentos áureos que dizem: Ama a Deus com todo seu coração, mente e forças e ao próximo como a você mesmo. 

Que Deus nos livre de nossa brutalidade e que esse banho de sangue nas ruas de Boa Vista termine.

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