Márcio Rosa da Silva

Tenho trabalhado há anos na defesa dos direitos da criança e do adolescente. Já vi muitas coisas horríveis acontecerem com crianças. Crimes, os mais diversos, sendo cometidos pelos adultos, vitimando pequenos indefesos. Há pais que negligenciam os cuidados mais elementares com relação aos filhos, e não estou me referindo a nada que exija grande poder aquisitivo, falo de coisas como deixar de acompanhar a vida escolar dos filhos, agredir fisicamente com espancamentos, como se a criança fosse culpada dos estresses de seus pais, e coisas do tipo.

Existem aqueles adultos que, responsáveis por uma criança, em vez de protegê-la a expõem a toda sorte de violência e abuso, inclusive a pior de todas as violências, a de natureza sexual.

Talvez a pior negligência que possa haver, e que acontece de forma muito silenciosa, é a de afeto. Há crianças que não são amadas por aqueles que as puseram no mundo. E não há decisão judicial que obrigue um pai a dar afeto. Pode-se obrigar a pagar alimentos ou garantir escola, mas não há como obrigar um pai e uma mãe a amar seus filhos, quando o afeto não existe.

É terrível ver uma criança inocente, que não pediu pra nascer, ser vítima da falta de cuidado, de afeto, de carinho, de acolhimento, de paternidade e maternidade. Crianças não deveriam sofrer. Deveriam ser sempre protegidas, cuidadas, amadas. Como seria bom se houvesse alguma maneira de evitar a violência contra a criança. Não apenas punir, porque a punição presume que a violência já aconteceu, mas evitar a violência ou negligência.

Mas a irresponsabilidade dos adultos é grande. Muitos não fazem planejamento familiar, não pensam sobre o momento de ter filhos e os tem antes do tempo oportuno, o que pode gerar rejeição, que vai resultar, fatalmente, em alguma forma de negligência.

Antes de colocar uma criança no mundo, os adultos deveriam pensar nas consequências disso. Ter filhos é uma benção, mas traz responsabilidades. É preciso ter estrutura emocional e financeira para ter um filho. Infelizmente algumas pessoas pensam apenas no prazer do momento da relação sexual e, irresponsavelmente, não usam qualquer meio contraceptivo.

Quantos homens não são dignos de serem assim chamados, porque fazem filhos e os deixam sem o seu nome, não assumem a responsabilidade da paternidade e, assim, se tornam diretamente responsáveis pelo sofrimento destas crianças. Quantas mulheres que poderiam ter se prevenido e não terem tido tantos filhos ou tê-los em outro momento de suas vidas, acabam expondo crianças ao sofrimento.

Se for para ter filhos para fazerem-nos sofrer desnecessariamente, melhor não tê-los. Fazer um filho e depois nem se dignar a registrar como seu, dar-lhe um sobrenome e assumir as responsabilidades de pai demonstra que tal pessoa é covarde, irresponsável e causadora de sofrimentos a uma criança. Da mesma sorte, engravidar por falta de cuidados mínimos de prevenção para depois permitir que a criança seja exposta a abusos e negligências é algo criminoso. Hoje em dia em qualquer posto de saúde há distribuição gratuita de preservativos e orientação sobre outros métodos contraceptivos.

Há muitas crianças que hoje sofrem no mundo e a culpa não é de Deus. Em boa parte, é culpa de pais e mães irresponsáveis. Coisa terrível é isso, porque tudo o que homem plantar, isso também ceifará.

Quando finalmente você decidir ter filhos, que seja uma decisão madura, bem pensada e que você seja um pai ou mãe que seja motivo de orgulho e uma benção para seus filhos.

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