Márcio Rosa da Silva

A figura de um messias (enviado, ungido, que tem poderes especiais para deflagrar uma transformação no estado de coisas) é comum a quase todas as religiões. Os judeus da época bíblica também esperavam um messias, mas não creram que ele tenha sido Jesus. E não creram por uma razão simples: eles aguardavam um messias glorioso, cheio de poder, que impusesse um reino celestial à força e que exaltasse Israel sobre todas as outras nações.

O messias que veio não se parece nada com o que Israel esperava e espera. Faltou aos conterrâneos e contemporâneos de Jesus observar melhor o texto do profeta Isaías quando ele descreve o messias que havia de vir como um homem de dores, experimentado no sofrimento. O profeta diz que o messias não teria qualquer beleza ou majestade que fossem atraentes. Sua aparência seria tão desfigurada pela violência, que ele se tornaria irreconhecível como homem. Seria desprezado e rejeitado pelos homens, alguém de quem os homens escondem o rosto.

Jesus frustrou as expectativas messiânicas de seu povo ao encarnar nossa humanidade, com toda fragilidade que nos é peculiar. O messias veio como um homem. E não como um homem rico, um príncipe guerreiro, um grande estadista, um religioso poderoso. Ele veio como uma pessoa simples, de origem humilde.

Até aí tudo bem, mas em algum momento ele assumiria as feições de um super-homem, e implantaria o Seu Reino, esperavam seus compatriotas.

Não. Com 30 anos se batizou e disse que o Reino de Deus já tinha chegado. Sem nenhum alarde. O Reino de Deus já estava no nosso meio, porque Deus tinha se feito homem e habitado entre nós, sem nenhum espetáculo, sem derramamento de sangue, sem guerra e sem devolver o poder político para Israel. Isso era extremamente frustrante.

Ele não era bonito e forte como os reis (os reis, lá no início da história, eram os mais fortes e os mais belos dentre o povo). Jesus não era belo, nem forte fisicamente. Como disse Isaías, ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse.

Fico pensando que se Jesus voltasse hoje nós não o reconheceríamos. Nós, assim como os judeus daquela época, esperamos um Jesus assim, glorioso, montado num cavalo branco, com espada na mão e para destruir tudo e nos glorificar. Pois é, temos razões para crermos assim, porque a interpretação que fazemos das Escrituras dão margem a essa crença. Mas, e se estivermos interpretando errado? E se Jesus voltar discretamente?

Aliás, precisamos ter olhos e sensibilidade para ver Jesus voltando todos os dias e presente no nosso meio. Nunca é demais lembrar que quando fazemos algo a um dos pequeninos de Jesus, estamos fazendo para Ele.

Talvez eu precise enxergar Jesus nos olhos da criança abandonada, violentada, desprezada. Jesus foi desprezado. Preciso ver Jesus no rosto de quem sofre injustiças. Ele sofreu um julgamento injusto. Preciso ver Jesus na expressão do doente terminal contorcido de dores. Jesus passou por isso. Preciso ver Jesus na olhar desencantado do idoso que foi abandonado pelos seus e hoje amarga a solidão. Jesus esteve só e abandonado. Preciso ver Jesus naqueles que sofrem. Ele foi experimentado no sofrimento.

A minha resposta a estes vai determinar se creio, ou não, na vinda de Jesus.

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