Márcio Rosa da Silva

Jesus se dirigiu ao Templo, aquele que deveria ser chamado casa de oração, local aonde o povo deveria afluir para a adoração e dedicação ao Deus de Israel do melhor de suas vidas. Ele ficou estarrecido, chocado com o que estava diante de seus olhos: um covil de ladrões. O fato de comprar e vender não era o problema maior, mas o fato de haver a comercialização do sagrado, ou seja a dessacralização do santo e o auferimento de lucro desonesto com tal mercantilização. Jesus virou as mesas e expulsou de lá vendedores e compradores. Repito, ele expulsou os que vendiam e os que compravam.

Historicamente os oportunistas sempre lucraram com o sagrado e a boa-fé das pessoas. Já foram vendidas lascas da cruz, gotas de lágrimas da virgem Maria, fios da túnica de Jesus e tantas outras quinquilharias travestidas de “relíquias” sacrossantas. Com o objetivo de financiar a construção de edifícios suntuosos já se vendeu perdão de pecados, as famosas indulgências, e também o resgate de almas do purgatório. Tornou-se famosa a expressão “ao tilintar da moeda no fundo do cofre, uma alma sai do purgatório”.

Hoje em dia o que se vende é ainda menos nobre. Vende-se a ilusão de ser próspero num passe de mágica. De ter todos os problemas imediatos resolvidos, de ser rico, ter carrões, empresas e coisas do tipo. Vejam que o nível caiu muito. Perdão de pecados é um “produto” muito superior a um carro último modelo. E tudo em nome da fé, que sempre é materializada através de polpudas ofertas em dinheiro.

Há uma legião de iludidos que se deixam enganar pelo discurso fácil e inconsequente da “teologia do receber”, ou seja, a pessoa tem o “direito” de receber muitas e palpáveis bênçãos e, em contrapartida, basta pagar por isto, ou melhor, “doar” uma quantia como prova de sua fé e sacrifício. Mas os iludidos não são exatamente inocentes nessa história. Só há segmentos que pregam ilusão porque há quem queira ser iludido. Como em boa parte dos estelionatos, tanto vítima como estelionatário tem algum interesse escuso no negócio. Aqui o sujeito que quer pagar por uma benção também tem culpa, é interesseiro.

Reconheço que é muito fácil se deixar levar por um discurso que soa como música aos ouvidos de incontáveis miseráveis, ou mesmo remediados, que estão com a corda no pescoço e vislumbram uma solução mágica. Justamente aí entram os cambistas da fé que “vendem” seu produto, aproveitando-se das necessidades e desilusões das pessoas.

Pois bem, Jesus expulsou os vendedores e os compradores. Enganados e enganadores estão no mesmo barco. Cuidado. Muito cuidado. Não se deixe levar pela conversa fiada que tantos desencantos tem causado. Tantas decepções, tantas bênçãos não recebidas, apesar de terem sido devidamente pagas. Ah, mas aí foi a fé que faltou, dizem. De uma forma ou de outra, a culpa pelo fracasso sempre é lançada sobre o “cliente”.

Deus não está tão preocupado em dar bênçãos materiais, mas sim em proporcionar um relacionamento paterno. De braços abertos, Ele quer acolher a todos como filhos e abençoar com todas as bênçãos que um Pai pode dar: carinho, afeto, perdão, graça, pertencimento ao Reino. E isso não tem preço, é de graça!

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