Márcio Rosa da Silva

É libertador descobrir que as teologias são elaborações inacabadas sobre Deus. Sejam elas de que matizes forem, nunca serão uma palavra final, definitiva, uma verdade absoluta sobre Deus. Isso traz um ar fresco, uma liberdade para também olhar para cima e pensar sobre Deus, elaborar, questionar sem culpa, sem medo de estar violando um código sagrado e sem a ameaça de torrar numa fogueira. Bem, essas continuam acesas, só não são literais como na idade média. É bom saber que todos os grandes teólogos da história também disseram, e fizeram, grandes bobagens. Eles não precisam ser idolatrados nem o que escreveram deve ser considerado como imutável. Senão, depois deles não haveria mais nada a ser dito sobre o transcendente, e ainda há, e muito.

Como estou maravilhado de andar com pessoas que não vêem conflito entre a fé e o pensamento, pelo contrário, estimulam isso. Esse ambiente tem-me feito olhar para Deus de forma muito mais lúcida. Tenho descoberto características em Deus que antes estavam encobertas pela roupagem de rei medieval que colocaram nele e com a qual me apresentaram-no. Um Deus semelhante a um rei absoluto da idade média não chora, não sofre, não se enfraquece, não se diminui, não se limita e também não dá plena liberdade aos seus súditos, mas os controla, absolutamente. É verdade que em inúmeras passagens bíblicas Deus é descrito com um rei. Tudo bem. Mas isto não impede que em outras ele seja descrito como quem tem o rosto de um cordeiro que foi morto e reviveu, ou seja, que ainda traz a feição da vulnerabilidade.

Marcou especialmente meu coração um texto do Ricardo Gondim, logo após o tsunami que devastou parte da Ásia, no final de 2004, no qual ele diz que “a morte de milhares de pessoas machucou infinitamente mais o coração de Deus do que o meu – o sofrimento é proporcional ao amor. O pouco que conheço sobre Deus e sobre seu caráter me indica que há muitas lágrimas no céu”. Tais afirmações geraram furor no meio evangélico, pois, segundo alguns, colocava em xeque o dogma de que Deus não poderia sofrer por algo que ele mesmo havia determinado. Bem, é claro que não posso acreditar que Deus tenha determinado tal coisa. Não parece evidente que, se nós que pouco amamos nos compadecemos de tais pessoas, Deus, que muito ama, também não choraria com o sofrimento delas?

Gosto especialmente de um texto de Isaías em que Deus usa a figura de uma mãe que acabou de dar à luz, para expressar seu amor: “Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Embora ela possa esquecê-lo, eu não me esquecerei de você!” (Isaías 49.15). Ora, uma mãe se compadece de seu filho. Compadecer, padecer junto. Uma mulher sem filhos é uma mulher livre, sem preocupações com outra pessoa que dependa dela. Quando ela decide ter um filho, biológico ou adotivo, não importa, ela nunca mais será totalmente livre, seus sentimentos sempre estarão cativos, seu coração estará sempre ligado ao seu rebento. Acho que Deus é assim. Sozinho no universo decidiu ser menor do que era e criou muitos filhos e filhas. Seu coração, seus sentimentos, seu grande amor, está sempre com estes filhos e filhas. Quando eles sofrem, o Pai, que é como a mãe que ainda amamenta, também sofre. Se o filho chora e a mãe não pode aliviar a dor do menino, ela também chora, seu coração dói junto com a dor do filho. Definitivamente, creio que Deus seja assim. Um Deus de amor.

E quem quiser alguma evidência de que Deus sofre as nossas dores, que olhe para a cruz.

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