Márcio Rosa da Silva

Tragédias como a queda do avião da Air France, ocorrido no início da semana, têm um poder de comoção que outros eventos igualmente trágicos não têm. Centenas de pessoas morrem todos os dias, vítimas de acidentes de trânsito, por exemplo, mas isso não comove tanto quanto um avião que cai. Acho que é porque é muita gente junta, ou porque isso alimenta o medo que, lá no fundo, todos temos de voar.

Já apareceu gente comemorando, isso mesmo, comemorando, o fato de não ter conseguido, por algum motivo, embarcar no fatídico vôo. Sim, deve ser uma sensação muito estranha a de saber que por pouco você não entrou num vôo rumo à morte. Mas daí a aparecer em reportagens celebrando isso, e agradecendo o livramento pela “mão” de Deus, é, no mínimo, desrespeitoso para com os familiares das centenas que morreram. É como se a mão de Deus livrasse uns e matasse outros. É muito cruel pensar assim.

Esses que se livraram poderiam, antes, refletir sobre a efemeridade da vida. Aliás todos deveríamos ter plena consciência do quanto a vida é efêmera. Talvez assim vivêssemos mais. Acredito que as pessoas não teriam comportamentos auto-destrutivos, nem pensariam ser melhores que outras, nem tampouco se preocupariam com coisas que não têm importância.

O importante é viver. E viver é aproveitar os momentos com aquilo que há de mais precioso, as pessoas que amamos. Que também são efêmeras, por isso mesmo deve-se apreciar tanto estar com elas.

Antoine de Saint-Exupéry diz da tristeza do Pequeno Príncipe quando este descobre que a flor que ele tanto amava e cuidava era efêmera. O menino príncipe descobre que efêmero é aquilo está “ameaçado de desaparecer brevemente” e lamenta. Mas sim, precisamos ter a consciência de que tudo o que mais amamos um dia vai desaparecer, vai passar. Por isso a vida é sagrada. Por isso deve ser tão apreciada.

O dia mal vem sobre maus e bons, ricos e pobres, crentes e ateus. Isso é inevitável. Mas é possível viver os dias, todos eles, apreciando o dom da vida e as preciosidades que estão ao nosso redor, nossos queridos. Penso que era isso que o autor sagrado tinha em mente quando escreveu: “Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida (…). O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria (Eclesiastes 9.7-10).

A vida é efêmera. Aproveite-mo-la com leveza e gratidão.

Anúncios