Márcio Rosa da Silva

Houve um tempo em que acreditei que a fé é um sentimento que move o braço (?) de Deus. Se eu fizesse um esforço mental bem grande poderia mover algo, como se houvesse um campo magnético a partir desse meu esforço. Bem, comigo nunca funcionou. Então achava que eu não tinha fé suficiente. Inquietava-me aquele ensinamento de Jesus sobre mover uma montanha para o meio do mar com uma fé do tamanho de um grão de mostarda. Eu não movia nem um grão de areia, quanto mais uma montanha. Minha fé não estava com nada.

Hoje tenho uma outra concepção sobre o tema. Fé me lembra confiança, descanso, serenidade, esperança. É Ricardo Gondim que diz que fé é uma confiança inabalável no caráter de Deus. Aprendi também que a fé, para ser fé, comporta dúvida. Sim, é a dúvida que me fará procurar saber a razão da minha fé. A dúvida me levará a buscar solidificar ainda mais minha fé. O objeto da fé não se vê, senão não seria fé. Não é preciso fé para saber que o Sol existe, ele está lá. Mas fé é uma esperança em algo que não se vê. Por isso mesmo é fé. É um salto, no dizer Kierkegaard. Uma aposta, no dizer de Jung Mo Sung.

Alguém que se casa tem fé de que terá um casamento feliz. É uma aposta. O que moveu os noivos foi a crença de que as coisas irão bem, de que o amor um pelo outro é verdadeiro e sincero. Então fé também é uma entrega. Quem salta de bungee jump tem fé que aquele elástico não vai se romper deixando-o estatelado no chão. É um salto de fé.

Em vez de mover Deus até mim, a fé é o que me move para Deus. Na verdade é sempre a fé que move as pessoas nalguma direção. Quando Moisés estava diante do Mar Vermelho, e no seu encalço o exército de Faraó, ele rogou a Deus sobre o que fazer. Deus respondeu que ele ordenasse o povo a marchar. Mas para onde, se à frente só havia o mar? Seria uma marcha de fé. E o mar se abriu. Gosto da interpretação dada por uma tradição rabínica, de que um homem, depois da ordem de Moisés, entrou no mar, que não se abriu imediatamente. Quando esse homem já estava com água pelo nariz, Deus, comovido com sua fé, fez um caminho seco no mar e todo o povo passou. Ele creu, ele apostou sua vida, ele deu um salto, ou um “nado”, de fé.

Agora não fico mais inquieto com a possibilidade de mover montanhas tendo uma fé diminuta. Descobri que a montanha sou eu mesmo. O mar é a aventura extraordinária de uma vida com Deus. Quando quero andar com Ele e fazer o bem, estou sendo movido pela fé. Quando deixo a retórica e faço algo concreto para o bem desse mundo, quando tento viver o Reino de Deus já nessa dimensão e realizo algo prático nesse sentido, a montanha está se movendo para o dentro do mar. Nada me moverá para o mar senão a fé de que a vontade de Deus pode ser feita na terra como é feita no céu. Para me lançar ao mar, preciso de fé, ainda que seja do tamanho de um grão de mostarda.   

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