A floresta estava florescente como sempre, muita vida, muito verde, animais entocados, outros no meio da abundância de flores e frutos procurando alimento, pássaros enchendo o lugar com um ruído quase ensurdecedor, insetos, serpentes, enfim, tudo estava muito vivo. O calor no nível do chão era conseqüência do sol inclemente que castigava a copa das árvores, já há cinco meses sem cair uma gota de chuva. A umidade já não era tanta como é comum na floresta, os igarapés que entrecortam a mata já estavam raleados e alguns eram apenas um corredor úmido. Os grandes rios que serpenteiam o verde continuavam seus cursos, só que em níveis baixíssimos. Nenhum sinal de chuva. Ela só viria dentro de uns dois meses, mas a vida continuava abundante dentro da floresta.

Mas aí o pior aconteceu: um condutor que vinha fumando pela estrada que corta a floresta, mesmo sabendo do perigo, termina seu cigarro e joga a ponta ainda acesa no matagal à beira do caminho. Segue sua viagem tranqüilo, ouvindo música agradável, tendo o calor mitigado pelo condicionador de ar e confortavelmente instalado num veículo de última geração. Já em casa, descansa, assiste futilidades na TV, toma uma bebida, janta e vai dormir, completamente despreocupado, o sono dos justos.

Dia seguinte os jornais não falam de outra coisa, senão do avassalador incêndio que está devastando toda a floresta, milhares de hectares atingidos, prejuízos irreparáveis para a fauna, centenas de anos para refazer a flora, a cidade inteira tomada por fumaça. Onde vida agora morte. Onde verde agora cinza. Onde barulho de pássaros agora barulho de fogo e destruição, depois, só silêncio. E o cara fica um pouco incomodado com a fumaça, maldiz quem foi o responsável por aquilo, cobra atitudes das autoridades, mas segue sua vidinha medíocre de novo, possivelmente causando outros incêndios por aí.

Pois bem, o mesmo pavor, prejuízo e destruição podem ser causados por uma língua ferina. Amizades de vida inteira, casamentos felizes, comunidades florescentes, podem ser incendiados e destruídos por uma fagulha que procede de uma língua malévola. Ela tem o mesmo poder mortífero e suas conseqüências são imprevisíveis, podendo acabar num incêndio de grandes proporções.

Infelizmente quem alimenta a fogueira causada por más línguas são vidas de outras pessoas, as vidas alheias. O célebre escritor francês Vitor Hugo, no clássico “Os Miseráveis”, ao descrever uma personagem que destilava seu veneno através da língua, diz o seguinte: “Algumas pessoas são más unicamente pela necessidade de falar. Sua conversação, simples loquacidade de salão ou diz-que-diz das salas de espera, é como essas lareiras que num instante consomem toda a lenha; elas precisam de grande quantidade de combustível e o combustível é a vida alheia”.

Na verdade devemos usar a língua e muito, para falar do amor de Deus, para denunciar o erro e o pecado e chamar ao arrependimento, para anunciar as boas notícias do evangelho. Mas ao mesmo tempo em que a Bíblia nos estimula a falar tais coisas, nos ordena a não usarmos o poder destrutivo da língua, sob pena de nós mesmos sermos incendiados por ela. Tenhamos cuidado e falemos o que edifica e produz vida, senão a floresta acabará incendiada e isso não é bom para ninguém.

Márcio Rosa da Silva

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