Márcio Rosa da Silva

Não tenho como deixar de repercutir o texto “Deus com pálpebras”, do Jessé Souza, publicado aqui na Folha na quinta-feira passada. Ele reflete o sentimento dos muitos que procuram estética no sagrado, beleza na liturgia e poesia na pregação e no anúncio das Boas Novas. Aliás, evangelho, que significa boa notícia, devia sempre ser anunciado com beleza, emoção, graça, carinho e entusiasmo. Em vez de beleza os buscadores encontram apenas utilitarismo, uma religião de mercado, onde é oferecido algo que funciona para resolver problemas cotidianos. O Belo foi substituído pelo Útil.

Isso é uma inversão, porque o culto deveria ser prestado a Deus, em louvor, gratidão, adoração, mas quando se fala apenas no que é bom e que funciona para resolver questões dos freqüentadores, o culto deixa de ser dirigido a Deus para ser focado no interesse pessoal e egoísta de cada um. A motivação para ir a um culto deixa de ser o desejo de ter um encontro com Deus e ali, com a comunidade, adorá-lo, celebrar Sua presença e derramar diante dEle a gratidão em forma de poesia e palavras doces. O motivo para ir passa a ser o interesse em ter suas encrencas resolvidas sem muito esforço, ficar rico sem ter que trabalhar muito (apenas dando a oferta requerida), ficar são sem ter que fazer tratamento médico, conseguir um bom casamento e coisas do tipo. É intrigante que isso aconteça a pretexto de se pregar a mensagem evangélica, já que Jesus disse para não corrermos atrás dessas coisas, porque isso é o que os pagãos fazem.

A alma humana tem fome de beleza. Poderíamos celebrar a beleza de Deus e de tudo o que criou com uma liturgia que desse lugar aos poetas, às artes, ainda que modo singelo, mas belo.

A pregação não precisa ser um libelo acusatório, mas mesmo quando dura e grave pode ser repleta de compaixão e doçura. Mas para isso é preciso ter a sensibilidade dos poetas e a gravidade dos profetas. Talvez seja necessário ser como Paulo, que usou de poesia em Atenas quando viu as expressões poéticas espalhadas pela cidade. E o que dizer dos Salmos que são orações em forma de poesia, ou poesias em forma de oração? E o Cântico dos Cânticos? Um romance poético cheio de beleza e erotismo. E a vida de Jesus? Que abriu mão de tudo, que passou por dores, traição, mas amou intensamente e deu a vida pelos amados. Uma poesia!

As músicas não precisam ser pobres e repetitivas, mas podem ser simples e belas. Tudo com poesia. Sem padrões importados ou tentativas de encaixotar Deus.

O Jessé está certo. É preciso resgatar a poesia no culto a Deus. Deus é um poeta.

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