Márcio Rosa da Silva

Acabo de participar de um Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizado na cidade do Rio de Janeiro. Um evento grandioso, com a participação de delegações de cento e trinta e sete países. Uma verdadeira Babel, uma profusão de idiomas, de rostos, de indumentárias e de experiências distintas. Chefes de Estados, autoridades judiciárias, representantes de redes de proteção de crianças, especialistas de todos os lugares do mundo. Num evento assim é que podemos ter uma pequena noção da exuberante diversidade cultural do nosso planeta. Mas nesse congresso havia uma participação interessante, e a mais significativa de todas, a de trezentos adolescentes de vários lugares do mundo. Claro, estaríamos falando sobre eles, então nada mais justo do que eles estarem presentes e tendo voz. Sim, em todos os painéis formados, houve participação de um adolescente falando sobre o tema.

Os painéis foram riquíssimos, com pessoas que podiam falar com toda a propriedade sobre a temática. Desde a Rainha Sílvia, da Suécia, que fundou uma instituição com a finalidade de ajudar na proteção de crianças, passando por Ministros de vários países, inclusive do Brasil, como Dilma Rousseff e Paulo Vanuchi, até representantes de movimentos sociais.

Mas as falas que mais me empolgaram, que mais tocaram o meu coração, que mais me deixaram esperançoso, foram as dos adolescentes. Tudo bem, nada é perfeito, enquanto todos os painelistas tinham vinte minutos para falar, os adolescentes tinham apenas cinco. Mas o fantástico é que nesses cinco minutos, sempre no fim de cada painel, eles conseguiram comunicar seus pontos de vista de maneira extraordinária. E não fui só que achei isso, a reação da platéia, composta de três mil pessoas, sempre foi efusiva após cada intervenção dos adolescentes.

No último dia, no último painel, as falas foram bastante burocráticas, dados, estatísticas e experiências de países europeus sobre o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. Para encerrar o painel, foi dada a palavra para uma adolescente de 16 anos, do Lesoto, pequeno país incrustado na África do Sul, onde existem os maiores índices de contaminação pelo vírus da AIDS. Pois nos cinco minutos que ela teve, o auditório, que estava sonolento, foi inundando de energia, como quando o sol dissipa nuvens cinzentas e banha o lugar de luz e calor. Ela conseguiu despertar esperança em nós. Uma menina, apenas uma garota, afirmou resoluta e com uma grandeza invejável, que juntos podemos mudar o mundo. Ela disse que juntos temos a capacidade de transformar o mundo. Unidos podemos ter um mundo sem exploração sexual de crianças e adolescentes.

Talvez alguém possa dizer que a esperança daquela moça é ingênua. Discordo. A minha maior alegria é constatar que o cinismo da maioria de nós, adultos, não matou a esperança daqueles que estão despertando agora para a vida. Acredito que é essa esperança dos mais jovens que deve contagiar os adultos, para juntos, realmente, transformarmos o mundo. Sim, irmanado com aquela adolescente do Lesoto, acredito que isso é possível! Alguém mais aí acredita e quer se unir a nós?

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