Márcio Rosa da Silva 

Depois de um longo e exaustivo dia de trabalho Rosa Parks tomou um ônibus e, havendo lugar livre, sentou-se. Logo depois entrou um homem branco e mandou que ela lhe cedesse o lugar. Pela lei, ela como uma pessoa negra, deveria ficar em pé, mesmo tendo pago o mesmo preço da passagem que o homem branco. Nesse momento ela foi ousada e não cedeu o lugar, dizendo que estava cansada e que tinha pago a passagem. Foi presa e multada. Mas os Estados Unidos nunca mais foram os mesmos.

A audácia daquela senhora despertou os sonhos de um jovem pastor de Atlanta, chamado Martin Luther King Jr. A partir daí foi deflagrado um boicote contra as empresas de ônibus, num movimento de resistência pacífica contra a segregação racial naquele país.

É difícil de imaginar que há pouco mais de cinqüenta anos pessoas negras não podiam sentar-se nos ônibus, freqüentar as mesmas escolas que os brancos nem serem tratados nos mesmos hospitais.  Sequer podiam ser enterradas nos mesmos cemitérios. Tudo isso foi gerando uma indignação no coração do jovem pastor e no de milhões de pessoas. Mas em vez de se amargurarem em lamentos, encheram o coração de esperança e acreditaram que um mundo melhor seria possível.

Luther King subiu as escadarias do Memorial Lincoln e, para um multidão de esperançosos, gritou emocionado: “I have a dream”. Sim ele sonhou com um país em que suas filhas não fossem julgadas pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter, em que todos tivessem as mesmas oportunidades e os ideais de fraternidade e igualdade fossem realmente vividos.

Muitos o chamaram de idealista ingênuo, utópico, um sonhador, mas eu o chamaria de audaz. Creio, porém, que nem em toda sua audácia ele jamais sonhou que em menos de cinqüenta anos um homem negro seria eleito presidente dos Estados Unidos da América.

Não sei se Barack Hussein Obama será um bom presidente, mas sua eleição tem um caráter simbólico extraordinário. Caiu por terra a idéia de que apenas o WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant – Branco, Anglo-Saxão e Protestante) poderia ser presidente dos Estados Unidos. Contra todas as estatísticas, diante de todas as impossibilidades, o inimaginável aconteceu: pela primeira vez uma família negra habitará a Casa Branca e o homem mais poderoso do mundo será um negro.

A eleição de Obama faz a ousadia de Rosa Parks ter valido e o martírio de Luther King não ter sido em vão. Obama encarnou a audácia da esperança, como bem diz o título de um livro que ele escreveu.

Se ele agora chegou à Presidência de seu país, foi porque no passado outras pessoas ousaram sonhar e lutaram contra as injustiças com as armas da paz. Resistiram bravamente, foram audaciosos e venceram. A eleição de Obama teve o voto decisivo dos que, no passado, deram a vida pelo fim da segregação.

É emocionante, é de encher o coração de esperança de dias melhores, é de renovar a crença no ser humano, saber que no mesmo país que negou o direito a uma mulher negra de se sentar numa cadeira de ônibus, agora, cinqüenta anos depois, um homem negro conquista o direito de se sentar na cadeira de Presidente da República.

Acho que vale a pena sonhar e ter uma esperança audaciosa.

Yes, we can!

Anúncios